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Manoharrai Sardessai (1925-2006)

Faleceu ontem à noite um dos mais prestigiados e respeitados nomes da literatura goesa. Sardessai, doutorado em Paris e fluente em português, dedicou uma vida inteira à poesia, prosa e língua Concani, deixando para trás vasta obra e um grande legado como activista e defensor da “amchi bhas”.

 

(Imagem: Cortesia Goa Konkani Academi)

Conhecido também como ‘Lok-Kavi’, Manoharrai Sardessai faleceu depois de um breve período de doença, encontrando-se hospitalizado em Panjim. Aos 81 anos de idade, deixa para trás a sua mulher, dois filhos e uma filha. O cortejo fúnebre sai amanhã ao fim da manhã de sua residência, em Sta. Inez, para o crematório local.

Educação internacional

Natural da aldeia de Savoi-Verém, na taluka de Pondá, Sardessai era filho de outro grande nome da literatura goesa, o falecido Lazmanrao Sardessai. Depois dos seus estudos escolares em Goa, seguiu para completar a sua pós-graduação em francês e marata na Universidade de Bombaim.

Daí seguiu para Paris, onde completou o seu doutoramento, com distinção, na Universidade de Sorbonne. A sua tese, com vastas referências a Portugal e a Camões, teve como título “A imagem da França na Índia”. De volta à Índia, ocupou diversas posições académicas, incluindo director do Departamento de Francês na Universidade de Goa.

Vasta obra

Sardessai distinguiu-se, no entanto, pela rica obra que deixa na língua de Goa, o concani. Pela sua colecção de poemas “Pissolim” (1980) recebeu mesmo a mais alta distinção cultural indiana, o “Sahitya Academy Award”, entre diversas outras condecorações e prémios indianos e internacionais.

Também na vida do dia-a-dia, Sardessai é presença contínua em Goa. As crianças aprendem cedo, na escola, o seu poema “Hadvotall Bebo, Shetamerer Ubo”, e o seu poemta “Hi Lokshai” retrata de forma sarcástica o actual sistema político.

Outras obras literárias a seu crédito são: Aiz Dholar Padli Badi, Goeam Tujea Moga Khatir, Jaipunyabhu Jai Bharata and Bebyache Kazar, Zaio-Zuio, Pissolim, Bhangrachi Kurad, Mankuli Geetam, Manohar Geetam e God God Geetam.

Outros trabalhos são Aamchi Bhas Aamkam Jai, Shenoi Goembab, Sahitya Suvad, Jaducho Kombo, Vivekanand e Devachim Utaram. Sardessai também escreveu algumas peças para teatro, como Smuggler e Birad Badallem, bem como antologias e mesmo músicas, também em inglês.

A sua obra-prima em termos de investigação é “A History of Konkani Literature: From 1500 to 1992”, uma monografia sobre a história da literatura goesa em concani.

Sardessai em Paris, 1985

Activista

Sardessai nunca se restringiu à pena. Foi um dos grandes activistas pela língua concani, presidindo mesmo à oitava edição da “All-India Konkani Conference”, realizada em Margão, poucos meses depois da invasão indiana de Dezembro de 1961.Também editou a revista “Saad” e o jornal “Novem Goem”. Foi o presidente de uma das principais instituições a favor da língua concani, a “Konkani Bhasha Mandal”.

O seu contributo mais activista foi, no entanto, na vanguarda do movimento que defendeu o estatuto oficial para o concani em Goa, a partir dos anos sessenta. Esteve também politicamente envolvido no referendo de 1967, quando os goeses rejeitaram por maioria a integração do seu território no estado vizinho de Marástra.

Ligação a Portugal

Sardessai, para além da sua tese com referências a Portugal e de dominar a língua de Camões, sempre teve uma forte ligação a Portugal. Participou na obra editada pelo Museu Nacional de Etnologia “Histórias de Goa” (1997) e colaborava com este site, especialmente para a Crónica das Fontainhas a cargo de Fernando do Rego.

Foi também neste espaço que se publicaram alguns dos seus poemas traduzidos para português, como “A Manga de Goa” e os manuscritos do seu poema em língua francesa “Adieu Paris”.

Era também presença frequente no Boletim da Casa de Goa, onde, após tradução de Jorge de Abreu Noronha, foi publicado o seu poema “Minha Goa”.

 

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