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Ventos de Goa no Liceu Pêro de Anaia

Pedro Mascarenhas volta a brindar-nos com a sua veia literária, mas desta vez partilhando memórias e opiniões suas sobre o Dezembro de 1961 que tão fortemente marcou a vida de milhares de goeses em Moçambique. Narra episódios que viveu na cidade da Beira e conclui com um apelo contra o colonialismo.

Seriam mais ou menos 19.30 horas quando o meu pai chegou a casa trazendo uma boa notícia já há muito esperada. Nesse dia o calendário indicava o dia 18 de Dezembro de 1961 e a novidade tinha sido difundida ao mundo inteiro pela prestigiosa rádio inglesa BBC.O poderoso exército indiano ao serviço da maior democracia do mundo iniciara finalmente a guerra de libertação de Goa , Damão e Diu. Era eu aluno do Liceu Pêro de Anaia e tomei conhecimento da notícia naturalmente e sem interrogações sobre o efeito dominó que este facto histórico iria produzir de forma imparável até ao golpe militar em Lisboa em Abril de 1974 e até mais tarde na queda do muro de Berlim. A L.M.-Radio da capital da colónia de Moçambique naquele momento passava músicas do grande Elvis Presley ,tais como Blue Hawaii, King Creole, G.I. Blues e Cant help falling in love.

No dia seguinte 19 de Dezembro como habitualmente dirigi-me ao Liceu, onde frequentava o 2º ano da turma D e localizada no 1º andar no sector masculino. Fi-lo da mesma maneira como todos os dias ,despreocupado, confiante e disposto a enfrentar mais cinco aulas e os respectivos professores, cada um com a sua personalidade. Porém do 1º andar viria uma grande surpresa que iria determinar daí para o futuro de forma serena, inabalável o meu modo de pensar e actuar em ralação à sociedade onde estava inserido. Subitamente e sem qualquer aviso vi-me rodeado por um grupo de alunos de raça branca que gritavam histericamente:

“-Olhem, está aqui mais um indiano. Morte aos indianos.Filhos da p— roubaram-nos a nossa Goa. Vamos partir este gajo ao meio.”

O antigo Liceu Afonso de Albquerque, em Panjim, GoaNaturalmente perante aquele espectáculo “de gente civilizada” assustei-me. Durante segundos fiquei paralisado segurando firmemente a pasta de livros e depois corri até ao parapeito que ficava entre o ginásio e a sala de desenho, e donde se avistava o campo de futebol e a sucursal da Livraria Nacional que servia a clientela dos bairros do Esturro e Matacuane. Os impropérios continuaram ,embora ninguém ousasse tocar-me, até que o David da minha turma numa intervenção enérgica pediu moderação convencendo-os que eu não era indiano mas goês.(Eu pessoalmente nunca fiz distinção entre goeses e indianos porque afinal goeses são indianos, tal como os portugueses são europeus apesar da ideologia do “orgulhosamente sós”.)

Os ânimos exaltados dos pequenos fascistas pareceram serenar-se pouco a pouco até ao momento exacto em que a sirene emitiu o som estridente indicando o início da primeira aula. Aquela turba assemelhava-se a um bando de hienas selvagens e irracionais à volta de uma presa indefesa e inocente prestes a ser devorada. Rigorosamente mais pareciam crias das hienas cujos progenitores lhes tinham incutido determinada educação e que estes por seu turno olhavam com admiração o patrão que tinha criado o Apartheid na Zuid Afrika.

O resto da manhã contudo não foi pacífico principalmente para os colegas das religiões muçulmanas e hindus. O hindu Kakoobai foi agredido e de tal maneira humilhado que meses depois abandonava definitivamente o liceu comprometendo o seu futuro.

“Ventos da História” foi uma frase histórica proferida por um diplomata na ONU referindo-se ao fim da era colonial. Eram ventos imparáveis que já estavam a esculpir novas nações em África e na Ásia e só os ignorantes campónios não descortinavam essa mudança.

“Ventos de Goa” nesse dia sopravam e agitavam as águas turvas e lamacentas do Liceu Pêro de Anaia e afinal todo o império colonial.

A fúria dos colonizadores e o desejo de vingança (em termos militares felizmente nunca concretizado até hoje) continuaram no dia seguinte e foi-nos comunicado pela professora de francês, a velha “Drácula” como era conhecida.

 

II

A fúria dos colonizadores prosseguiu na manhã seguinte com uma concentração “popular e espontânea” à entrada do edifício do Governo Civil, localizado entre a livraria Spanos e a casa Dimitrious, junto à muralha.

Nesse dia a professora de francês de alcunha Drácula comunicou-nos que estava marcada uma manifestação de desagravo e, por consequência , todos os estudantes obrigatoriamente teriam de dirigir-se por todos os meios para aquele local.

Lamparina do Templo de Manguexi, em GoaMontado na minha bicicleta “Rudge Sport” e na companhia do chinês Kiang e do muçulmano Mussa ,os três pedalamos em direcção à baixa. Quando passamos por uma zona residencial uma dona de casa que estava à janela, tal como os vizinhos, gritou: “- Lá vai um Nehruzinho…”. O Mussa talvez por ser muçulmano sentiu-se atingido e ripostou com violência verbal: “-O quê? Você conhece-me de algum lado? Sua filha da p—-!!!.” Perante a nossa gargalhada e surpresa dos vizinhos a “labrega” rapidamente recolheu os dois filhos e fechou a janela.

Quando atingimos o Hotel Embaixador separámo-nos. Eles foram para as suas casas e eu deixando a bicicleta encostada num passeio caminhei até a rua “dos monhés” como diziam os racistas por ignorância. Monhé significa descendente de pai árabe e mãe negra e não tem nenhuma relação com o povo indiano. Os monhés estão concentrados em grande número no norte e parte oriental de África(Sudão, Somália etc.).Na rua Correia de Brito tive a sorte de cruzar com o meu amigo Joaquim Rodrigues Monteiro, o único negro comandante de Bandeira da Mocidade Portuguesa. Ali constatámos que uma significativa presença de soldados armados (com a velha Mauser) guardavam as lojas dos indianos que apresentavam vidros partidos .Um deles abordar-nos-ia ,por estarmos a conversar, e de forma arrogante mandou-nos circular.

Mais tarde quando cumpri o serviço militar obrigatório compreendi a atitude daquele soldado raso. Tive a sorte de ser Oficial de Exército com a patente de Alferes Miliciano e para quem como eu que leu alguma coisa sobre a psicologia humana pude constatar na prática uma enorme frustração da parte dos praças ,soldados e cabos, que sentiam uma premente necessidade de afirmação a qualquer preço.

Na tal concentração marcaram presença mais estudantes que adultos e os discursos proferidos eram banais e repetitivos papagueados por várias entidades entre os quais dois “voluntários”, sendo um negro e um dito goês.

Mais tarde ocorreram muitos incidentes e dos quais destacarei dois.

Num dado dia o professor de Desenho ,o arq. Ramalhete, comunicou-nos que o desenho era livre. Ocorreu-me ,então que na mala trazia alguns cromos da colecção Os Piratas e decidi desenhar e pintar uma caravela dos Flibusteiros (piratas das Caraíbas do sec.XVII e XVIII). As minhas notas nessa disciplina oscilavam normalmente entre os 14 e os 16 valores, pois nesse dia quando uma hora depois apresentei-lhe o meu trabalho a sua reacção foi diferente. Quando me questionou, respondi-lhe que tinha desenhado uma caravela de piratas.

Depois de ter rabiscado um “medíocre mais” na folha vociferou :”-Pirata é o sr. Nehru.”

Estaria ele a pensar no Vasco de Gama(r) ?- pensei eu furioso.

Agora imaginem só, Jawaharlal Nehru companheiro de Mahatma Gandhi, que disse aos ingleses não à colonização e à escravatura, dirigente da maior democracia do mundo e eleito também democraticamente era um patife. Salazar, o ditador provinciano e chefe do partido único União Nacional e da criminosa Pide era um modelo a seguir! Com que facilidade as mentes provincianas deturpam a verdade. Os seus cérebros primitivos não descortinavam o bem do mal, o certo do errado, a verdade da mentira e os factos históricos das manipulações subjectivas . Por razões puramente políticas eu apanhara uma negativa no desenho!

Penso que ser objectivo é próprio de pessoas civilizadas e cultas. Hoje muitos dos meus amigos de infância vindos de Moçambique compreendem o porquê das diferenças no seio da União Europeia. A Europa a duas velocidades ,o norte rico e desenvolvido e o sul pobre e atrasado. As diferenças patentes entre Mumbay (ex-Bombaim) influenciada pelo mundo anglo-saxônico e Goa. As ex-colónias inglesas como Estados Unidos, Canadá, Austrália ,Nova Zelândia, a própria África do Sul (apesar do apartheid) e a Rodésia dos anos 60 que estavam e estão à anos luz de Angola , Moçambique e do Brasil (actualmente a recuperar bem estando em 14º no ranking dos 20 mais industrializados).

 

III

O Sr. Albuquerque era proprietário de uma alfaiataria na Beira e como o negócio não ia de feição mudara-se para Vila Pery, onde já se encontrava nesse dia de 19 de Dezembro. A sua esposa e o seu único filho foram deixados em Goa por razões económicas.

Todos os goeses o conheciam como sendo pessoa sempre bem disposta e faladora e um dos fundadores do Clube Desportivo dos Operários Goeses. Aos fins de semana vinha à Beira para reencontrar velhos amigos. Nesse dia nessa vila emitiu muito naturalmente a sua opinião favorável à Índia perante uns clientes fascistas que o denunciaram à Pide. A sua opinião ajustava-se a situação que se vivia em Goa.

Praia de PalolemGoa durante o regime colonial tinha testemunhado uma existência miserável e as cartas que ele recebia da esposa confirmavam isso. Até os intelectuais e padres católicos que se opunham ao regime de Salazar eram presos e deportados para Tarrafal, Trafaria etc. Exemplo disso é T.  B.Cunha, fundador do partido do Congresso Indiano (ramo goês do Congresso de Nova Delhi).Mas o peso maior da opressão fazia-se sentir junto da comunidade hindú. Toda a gente em Goa punha a seguinte pergunta “se em Bombaim ninguém era preso por divergências de opiniões porque não estender essa democracia até cá”. O governo democrático da Índia por inúmeras vezes tentou convencer os senhores de Lisboa mas estes não admitiram qualquer diálogo ou conversações como fizeram os franceses em 1954 em Pondicherry (conjunto de territórios nos estados indianos de Kerala e Tamil Nadu que formavam a colónia francesa na Índia).

Pois o Sr. Albuquerque nos fins de semanas seguintes não compareceu nos encontros marcados e como o gesto de telefonar ainda não estava muito divulgado, um dos amigos tomou a decisão acertada de ir pessoalmente a Vila Pery onde constatou o seu desaparecimento. Indagou junto das pessoas conhecidas e ninguém, incluindo a polícia, ousou explicar a sua situação. Regressado o amigo à Beira diligenciou-se junto das pessoas influentes que acabaram por solver o enigma.

O Sr.Albuquerque tinha sido preso pela PIDE e enviado para a cadeia da então cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo).

Esteve preso durante vários meses e nunca foi julgado. Quando foi libertado vinha magro, abatido e adoentado. Com o apoio de amigos partiu para Goa onde veio a falecer. Os que em Vila Pery o denunciaram viveriam felizes até ao 25 de Abril de 1974 e depois disso não foram felizes nem tiveram muitos filhos e nem viveram muitos anos como naqueles contos de fada.

É curioso verificar o manto de silêncio que cobriu este caso junto dos seus conterrâneos. Como os colonos sabiam que objectivamente não podiam vingar-se da derrota humilhante sofrida na Índia, então só lhes restava vingar-se em Moçambique, a única colónia africana que albergava um grande número de indianos. Nos dias seguintes, um largo número de hindus, homens, mulheres e crianças, foram levados a um campo de concentração. Primeiro no bairro de Maquinino e mais tarde na Manga. Os seus bens foram confiscados e distribuídos ilegalmente entre pessoas corruptas. Hoje sabe-se que o ouro, a prata, as lojas e o respectivo recheio, casas, automóveis e terrenos não foram entregues ao Estado mas distribuídos entre os agentes da Pide, adeptos da União Nacional e outros “amigos”. Meses depois os detidos foram expulsos de Moçambique praticamente só com a roupa que traziam no corpo. Recordo-me muito bem da alegria que sentiram alguns colegas do Liceu Pêro de Anaia ,incluído os ditos goeses quando souberam que os mesmos tinham sido expulsos. A desumanidade praticada pelos colonos era enorme. Não devemos temer em dizer que os racistas estavam bem felizes com a miséria alheia. “Os monhés tinham o que mereciam.”- diziam eles.

 

Deus não dorme. Nunca dorme. Quem com ferro mata com ferro morre. A maior parte de camponeses ignorantes desconheciam esse provérbio ou então pura e simplesmente ignoraram-no. Pouco depois do golpe de estado em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974 a mesma receita foi passada pela Frelimo a muitos desses senhores. Foram expulsos de Moçambique só com a roupa que traziam no corpo depois da nacionalização das terras. A memória dos povos é curta disse uma vez um filósofo e é verdade. Narram como saíram das colónias mas nunca desvendam o que fizeram aos indianos e aos africanos. Relatam o que POSSUÍRAM mas nunca revelam o que NÃO TINHAM quando desembarcaram nas colónias. Nesse aspecto são mais autênticos os emigrantes que demandaram as terras francesas e que descreviam a fome e o atraso que deixaram para trás nas suas miseráveis aldeias e que nunca foram objecto de atenção por parte de Salazar.

Ventos da História, ventos de Goa varreram os corredores do Liceu Pêro de Anaia ( Beira ) no dia 19 de Dezembro de 1961e transmitiram a seguinte mensagem:

Em pleno Século XX ninguém admite ser colonizado ou escravizado. Ninguém envia convites para ser colonizado. Se o colonizador for ignorante, teimoso e arrogante há que enfrentá-lo sem receio e determinação.

 

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