Um artigo publicado no LUSOFONIA, jornal da Associação de Amizade Indo-Portuguesa. Mafalda Mascarenhas escreve sobre o estado da língua portuguesa em Goa, que depoisde 1961 tem vindo a perder terreno mas hoje ganha novos adeptos entre os mais novos.
A ideia não é nova. Julgo mesmo que é sentida por muitos goeses: praticar português, com maior enfoque na conversação. Há uns tempos atrás um pequeno grupo de goeses chegou até a pensar em ter aulas de conversação com a ajuda do Instituto Camões. Mas, na altura, a população interessada era demasiado pequena e heterogénea, com díspares níveis de conhecimento da língua portuguesa e a ideia não frutificou.
Agora fui novamente abordada, por outras pessoas, no mesmo sentido. De modo informal reunimos seis pessoas, membros de duas famílias, e resolvemos diverter- nos em português à hora do lanche. Uma vez por semana falamos em português em casa de uma das “alunas”, durante um pouco mais de uma hora, na companhia de biscoitos, bolos caseiros, chá, café ou laranjada.
O grupo compõe-se de duas mães e respectivas filhas e nora. Uma das mães sabe português apenas por influência da família do falecido marido, na casa de quem todos falavam português. Nasceu em Amhednagar, onde viveu até aos 11 anos, altura em que se mudou para Goa, onde terminou os seus estudos universitários. Até se casar apenas falou em inglês e marata.
A curiosidade e o instinto de sobrevivência no seio da nova família devem ter sido motivação suficiente para, pelo menos, tentar perceber o que por lá se falava. Já que, como era regra em Goa há mais de 20 anos, o casal veio viver para a casa ancestral da família do marido logo após o casamento. A família alargada tinha além de outras vantagens (e desvantagens) a característica de promover a aprendizagem do português entre aqueles que em princípio nunca o aprenderiam de outro modo.
A sua filha mais nova tem 17 anos e aprendeu português na escola, em Goa, durante cinco anos, do 8º ao 12º ano. Para além disso, pôde usufruir de uma excelente explicadora, cujo conhecimento da língua portuguesa e até a pronúncia fariam inveja a muitos portugueses. Embora possua um considerável domínio teórico da língua, ela não se sente suficientemente confiante para falar em português.
A filha mais velha tem 20 anos, nunca estudou português, mas surpreendentemente mostrou-se capaz de, desde a primeira hora, ler em voz alta e compreender um texto escrito. A justificação está no facto de ter ouvido falar português em casa durante toda a infância. Neste solo fértil, as sementes então lançadas, apenas esperavam a oportunidade para germinar e medrar.
A outra matriarca viveu sempre mais próximo da língua portuguesa. Os pais, ambos goeses, embora a viver em Delhi, falavam português, mas apenas em contexto profissional e inerentes contactos sociais, nos quais a filha ocasionalmente também participava. Á semelhança da primeira, também casou com um luso-falante, cuja família só falava português em casa. Com o marido e sua família falou sempre apenas em português.
A sua filha, de 23 anos, cresceu a ouvir português, quer no contexto familiar quer entre os amigos dos pais. E com os avós sempre foi essa a língua utilizada. A nora revelou-se outra surpresa, uma vez que nunca privou de perto com a língua portuguesa. Concani e inglês são as suas línguas base. Desde a primeira sessão ela foi capaz de ler, compreender e falar. De notar que o português que sabe, aprendeu-o sozinha, com livros e força de vontade.
Outra vez, o facto de estar casada com um goês lusófono revelou-se motivação necessária e suficiente para aprender português. Este é o retrato das minhas “meninas”. Com mais ou menos conhecimento da língua, todas são capazes de seguir o plano de estudos definido. Na elaboração da estrutura e conteúdo das sessões socorri-me de um cd-rom denominado “Conhecer Portugal e Saber Português”, especialmente criado para ensinar português como língua estrangeira. Ora aqui está um instrumento que devia ser mais divulgado e utilizado.
As novas tecnologias da informação deviam ser aproveitadas e os projectos de ensino da língua portuguesa deviam passar por aqui: cd-rom, ensino a distância e internet ajudariam certamente a quebrar barreiras (físicas e psicológicas), encurtar distâncias, melhorar a qualidade e reduzir custos. Voltando às minhas sessões familiares de conversação, temperadas, aqui e ali, com alguns conhecimentos teóricos, elas surpreenderam-me muito positivamente.
Eu não estava à espera de uma base de trabalho tão boa. Tal só veio confirmar a minha suspeita de que em Goa sabe-se mais português do que se julga e se fala na rua. Goa tem um potencial riquíssimo para a aprendizagem da língua de Camões. Há só que ultrapassar definitivamente o trauma da presença colonial... Tudo na vida tem um lado positivo, mesmo as coisas menos boas.
Olhar para elas e delas retirar aquilo que nos pode tornar mais fortes e nos fornecer mais-valias no presente e no futuro parece-me um bom caminho a seguir. Recordo-me agora de um anúncio publicado em português nos jornais de Goa em que uma multinacional procurava trabalhadores qualificados que falassem português.
Espero que a pretérita presença portuguesa em Goa possa ainda dar, aos goeses, valiosos frutos. Sem medo de perniciosas e completamente injustificadas dominações. Se há que ter medo de algum domínio não é, de todo, do domínio cultural português. Há outros poderes económicos e políticos (e não são portugueses) que dominam o mundo de hoje.
Conhecer a língua e a cultura portuguesas não é baquear perante o antigo colonizador. É reconhecer que uma parte da cultura goesa tem um vínculo indelével com essa realidade e renunciar a ela é renunciar a uma parte de si mesmo ou a uma parte da sua família. Assim como a genética não permite esta renúncia, assim não o permitirá a História.