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Dias de Goa

30/12/2003   |  Vital Moreira
in: Público, 30 de Janeiro 2003

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A velha senhora aproxima-se de nós, magra e ligeiramente curvada, mas ainda ágil de movimentos. Saúda-nos em inglês. "Pode falar em português, mãe" - diz o filho, um senhor de meia-idade, na mesma língua. "Vêm de Portugal." O rosto dela alegra-se enquanto comenta: "Ainda bem, sinto-me mais à vontade, mesmo sem ter oportunidade de praticar com frequência." (Artigo de VITAL MOREIRA, no Público).

A velha senhora aproxima-se de nós, magra e ligeiramente curvada, mas ainda ágil de movimentos. Saúda-nos em inglês. "Pode falar em português, mãe" - diz o filho, um senhor de meia-idade, na mesma língua. "Vêm de Portugal." O rosto dela alegra-se enquanto comenta: "Ainda bem, sinto-me mais à vontade, mesmo sem ter oportunidade de praticar com frequência."

Estamos em Chandor, a leste de Margão. Visitamos uma das casas mais emblemáticas da antiga aristocracia senhorial de Goa, a casa Bragança. É uma entre muitas outras espalhadas por todo o território, testemunho da grandeza e do fausto das grandes famílias da Goa colonial. No seu excelente livro ("Palácios de Goa", Lisboa, 2ª ed., 1996), Hélder Carita faz uma boa apresentação dessa encantadora arquitectura indo-portuguesa.

Esta é (alguém nos refere depois) a "Dama de Chandor", como a denominou um filme da RTP, anos atrás, realizado por Cristina Mourão. Mostra-nos a casa, as salas amplas, o mobiliário goês, as porcelanas chinesas, os lustres de cristal belgas, a rica biblioteca em estantes baixas, os retratos a óleo dos antepassados. Posa com gosto para a fotografia, num canapé debaixo de um deles, direita e digna, como convém à sua condição. Explica-nos por que resolveu abrir a casa a visitas pagas (de resto uma pequena contribuição). Depois de 1961, após a incorporação na União Indiana, veio uma reforma agrária que privou a família de grande parte dos seus rendimentos fundiários. Depois, os descendentes foram-se ausentando para outras paragens. O turismo cultural foi a alternativa que encontrou para poder manter a casa. À despedida comenta, com uma sombra no olhar, que não sabe o que sucederá à casa depois dela.

Hoje é dia da peregrinação de São Francisco Xavier, na cidade de Velha Goa, onde se encontra o túmulo do evangelizador do Oriente, referência dos católicos goeses e não só. São dezenas de milhares de pessoas que se espalham pelos amplos terreiros ou à sombra dos palmares. Uma longa fila serpenteia lentamente, desde as quatro horas da madrugada, ao encontro do túmulo do apóstolo, na Basílica do Bom Jesus, objectivo primordial para muitos dos peregrinos. Suportam estoicamente horas de espera sob o sol inclemente dos trópicos. Vêm com os seus atavios festivos, a maior parte delas vestindo os mais belos saris, quase todos eles de fato escuro, camisa branca e gravata. As crianças não faltam nos seus trajos garridos. Chamam-nos a atenção as flores e oferendas de frutos, que muitas pessoas trazem, semelhantes aos que encontramos nos templos hindus. É evidente o sincretismo religioso.

Findos os dias da peregrinação, a antiga capital portuguesa do Oriente, que segundo rezam as crónicas tinha mais de 200.000 habitantes e suplantava Lisboa em grandeza e monumentalidade, voltará à sua condição de cidade-museu abandonada. Hoje só restam algumas das grandiosas igrejas de outrora. Vistas do cimo da colina sobranceira, onde se encontra a igreja da Senhora do Monte, recentemente restaurada pela Fundação Oriente (que tem em Pangim uma bela sede, num edifício de arquitectura tradicional indo-portuguesa), as igrejas da velha cidade alvejam isoladas entre a floresta muito verde, delimitada a norte pelo azul intenso do rio Mandovi.

Com a ajuda dos velhos mapas e gravuras de viajantes de outrora tentamos reconstituir a topografia da cidade desaparecida, tomando por ponto de referência o Arco dos Vice-Reis, porta de entrada na cidade para quem chegava pelo rio acima. Aqui em frente da Sé ficava a Praça Velha; ao lado, o palácio da temível Inquisição de Goa; mais além, o paço dos vice-reis; aqui, seguia a Rua Direita, uma das mais importantes da buliçosa cidade antiga. E assim por diante. É impossível resistir sem emoção a esta reposição imaginária da grandiosa metrópole de outrora.

Entre os motivos que tornam obrigatória a visita à cidade desaparecida contam-se o museu da arte sacra, que a munificência da Fundação Gulbenkian organizou (inicialmente instalado no Seminário da Rachol, mais para sul), e o museu arqueológico, no Convento de São Francisco de Assis, cuja monumental igreja ainda ostenta o primitivo portal manuelino, preservado na sua reconstrução seiscentista. O museu é notável, especialmente pela colecção de retratos de todos os vice-reis e demais governadores da Goa portuguesa, desde D. Francisco de Almeida ao general Vassalo e Silva. A maior parte deles encontrava-se no palácio do Governo em Pangim, que se tornou capital do território depois do abandono oficial de Velha Goa. É uma colecção impressionante, tanto pelo número de figuras ao longo de 450 anos (os mandatos foram em geral de curta duração) como pela solenidade dos retratos a óleo. Somente o último governador não tem direito a mais do que uma fotografia a preto-e-branco. Todos são de origem europeia, salvo um único goês, Bernardo Peres da Silva, que (somos informados mais tarde) governou efemeramente o território em 1835-36, no seguimento do triunfo liberal em Portugal. Hostilizado pela elite goesa, predominantemente miguelista, viu-se obrigado a fugir para Damão, de onde governou à distância durante alguns meses, até ser substituído. Mas o mais insólito da galeria de Velha Goa está no fim da exposição, quando nos aparecem inesperadamente os retratos coevos dos presidentes da República do Estado Novo (Carmona, Craveiro Lopes e Américo Tomás), bem como o de Salazar, na sua gravidade oficial. Manifestamente é preciso ir a Goa para encontrar reunidos os supremos dirigentes da ditadura!

Deambulando pelo Bairro das Fontainhas - que preserva na arquitectura e nos nomes das ruas e dos estabelecimentos intensas marcas da Pangim portuguesa - encontramos por acaso o restaurante Ferradura, numa esquina da Rua de Ourém, marginando a ribeira do mesmo nome que lá ao fundo desagua no Mandovi. O nome não nos era desconhecido; na verdade, aparece mencionado no livro do José Eduardo Agualusa "Um Estranho em Goa" (Lisboa, 2000), que dá o restaurante como pertencendo a um cidadão português, que era "comando" do exército colonial em Angola e que após a independência em 1975 se juntou à UNITA, para pouco depois deixar África e acabar em Goa, logo em 1976, com vários portos pelo meio. Haveremos de voltar para jantar e para verificar a estória. O ambiente é caracteristicamente português, nos cartazes expostos nas paredes, na música ambiente, no menu. O dono aparecerá na hora do café. Perguntamos se o relato do escritor angolano corresponde à sua biografia. "Mais ou menos" - responde ele; "no essencial, sim". Conta-nos ele mesmo a sua insólita história pessoal. Um português errante em busca do seu Oriente. Hoje sente-se em Goa como se fora a sua terra.

Já não dá para nos surpreender. Também nós, ao fim de poucos dias, cada vez nos sentimos menos como estranhos em Goa.

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