Numa entrevista recente ao Expresso, o General e ex-Presidente da República Ramalho Eanes defende que Goa era um caso único no espaço colonial português e que tinha todas as condições para se afirmar como estado independente. Lembra Goa como uma "grande escola" e caracteriza a descolonização portuguesa como "inglória".
Excertos da entrevista conduzida por José Pedro Castanheira, na edição 1787 do Expresso.
Em 1958, foi para Goa. É a sua primeira comissão. Levou consigo um exemplar dos Lusíadas, de 1876.
Exacto. Goa foi, para mim, uma grande escola. Aprendi ali muito de bom e muito de mau (de mau porque condicionou, durante muito tempo, a minha visão colonial). Vivia numa companhia comandada por um tenente natural de Goa, que era mais uma família que uma unidade; os soldados e os sargentos eram goeses.
Goa era um microcosmos histórico e político muito distinto e distintivo. Para ser um Estado de facto, só lhe faltava o poder político. Todas as grandes funções eram exercidas por goeses - só o governador e o comandante militar não o eram. O meu comandante e 2º comandante de companhia eram goeses. A Administração, mesmo a superior, era goesa, os juízes dos tribunais supremos eram goeses; a escola médico-cirúrgica era dirigida por goeses...
Está a dizer que Goa tinha condições para ser independente?
Estou. Havia todas as condições, pois tínhamos realizado ali uma coisa que, como depois tive a ocasião de constatar, não realizámos em mais parte nenhum. Criou-se uma cultura que não era a nossa, mas que não era a indiana. Goa tinha uma personalidade cultural própria. Recentemente, o professor Fausto Quadros comparou Goa a Timor; acho que tem uma certa razão. Aquilo poderia ter sido, não o Estado português da Índia, mas o Estado de Goa.
Goa poderia ter sido independente a seguir à independência da Índia, outorgada pela Grã-Bretanha?
Acho que sim. Salazar, depois da II Guerra Mundial, teve todas as condições para conceder a independência a Goa.
Está a responsabilizar Salazar pela invasão de Goa?
Responsabilizo inteiramente Salazar por não ter sido capaz de ler a situação geopolítica determinada pelo fim da II Guerra Mundial, em que as colónias não tinham cabimento. Salazar não percebeu isso e acabou por nos condenar à descolonização inglória que produzimos. É o primeiro e grande responsável por isso.
Em todo o caso, o senhor ainda se ofereceu como voluntário, quando da invasão de Goa.
Várias vezes me perguntaram em Goa o que pensava sobre o futuro. Jovem tenente, convencido ainda que Portugal ia do Minho até Timor, que podia ser um exemplo no mundo, disse-lhes que Portugal estava para ficar e que eles eram tão portuguesas como eu. Quando se deu a invasão, entendi que, embora sem mentir, os tinha enganado - e que o mínimo que podia fazer era oferecer-me como voluntário.
Não aceitaram?
Não. Aquilo foi muito rápido. Não foi ninguém. Nem sequer foram armas nem munições indispensáveis.
Alguma vez voltou a Goa?
Não. Tinha aceite um convite para visitar a Índia - e naturalmente iria visitar Goa - quando a senhora Indira Ghandi foi assassinada [EM 1984].
Em 1962, foi para Macau, que não tem nada a ver com Goa. Macau também teria condições para ser independente?
Nunca. Macau era realmente um território chinês. Enquanto em Goa havia uma elite, que não era portuguesa, mas também não era indiana - era goesa -, em Macau havia chineses e portugueses. Em Goa, Afonso de Albuquerque determinou o casamento de nobres indianas com portugueses.
A miscigenação...
... que demonstra que nós, no fundo, não somos racistas.
Acha que os portugueses não são racistas?
Acho. Embora tenham, por vezes, manifestações de racismo. Por razões diversas. Mas não são racistas. A carta do Pêro Vaz de Caminha é uma maravilha; ali não se diz que encontrámos uns tipos escuros e despidos; ele só consegue ver o que eles têm de belo e de diferente em termos culturais. Um indivíduo culturalmente racista tem um outro olhar - não tem aquele olhar.
Mas em Macau não houve miscigenação.
É verdade. Uma das minhas grandes decepções, ao chegar, foi ver que, afinal, o modelo de Goa não era o nosso modelo.
Era uma excepção.
Não percebi logo que Goa era uma excepção. O que percebi é que aquele não era o nosso modelo - senão teríamos tentado aplicá-lo em todo o lado, em Macau, também.
Macau era uma espécie de reverso da medalha.
Era. E para um jovem capitão era claro que Macau poderia ter sido uma coisa totalmente diferente. Poderíamos ter feito de Macau aquilo que os ingleses fizeram de Hong Kong. Mas em Macau não havia nada - era uma aldeia, muito engraçada e bonita...