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Orlando da Costa (1929-2006)

28/1/2006   |  Constantino Hermanns Xavier

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O romancista e poeta goês Orlando da Costa morreu, ontem, em Lisboa, aos 76 anos, vítima de doença prolongada. Nascido em Maputo, em 1929, viveu a sua infância e adolescência em Goa e estabeleceu-se em Portugal em 1947. A sua obra literária enquadrou-se no neo-realismo português, dedicando especial atenção a Goa.

Orlando da Costa iniciou a sua actividade literária pela poesia, tendo passado também pelo teatro, embora tenha sido na prosa que alcançou maior notoriedade. Nasceu em Maputo, em 1929, e viveu a infância e adolescência em Goa, donde recolheu inspiração para algumas obras. Veio para Lisboa em 1947, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras. Na Casa dos Estudantes do Império, nos anos 50, conviveu de perto com alguns dos futuros dirigentes da FRELIMO, MPLA e PAIGC.

Estreou-se como poeta em 1951, com o livro «A Estrada e a Voz», mas é nos romances que tem as suas principais obras de destaque: «O Signo da Ira» (1961), «Podem Chamar-me Eurídice» (1964), «Os Filhos de Norton» (1994) ou «O Último Olhar de Manú Miranda» (2000). No teatro foi reeditada em 2003 a obra de 1971 «Sem Flores Nem Coroas», onde retoma o período colonial português em Goa. Em 2004, lançou «Vocações/Evocações», uma selecção de poemas para comemorar os 30 anos do 25 de Abril de 1974. Foi ainda vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE), instituição que frequentava com muita regularidade. Foi ainda publicitário e dramaturgo.

O presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE), José Manuel Mendes, classificou a obra do poeta como "um dos momentos mais relevantes da ficção portuguesa". Para o presidente da APE, Orlando da Costa "contribuiu com os seus romances, os seus poemas e a sua dramaturgia para a renovação de formas e temas que trouxeram à literatura portuguesa uma base próxima do neo-realismo".

Já o escritor Mário de Carvalho destacou a "humanidade e companheirismo" do romancista. E remata "Era uma pessoa perfeitamente extraordinária". “Era uma pessoa perfeitamente extraordinária, com um sentido de camaradagem invulgar”, comentou à Lusa. Da obra, Mário de Carvalho salientou a “prosa muito apurada” e “o grande domínio do português”. De todos os livros, o escritor realça «Podem Chamar-me Eurídice», que considera ser “um dos bons romances que se escreveram no século XX”. “É uma história de resistência e de um grande amor, escrita com uma técnica muito apurada, também com ternura e com um sentido épico e lírico”, acrescentou.

O Partido Comunista manifestou o seu pesar pela morte do escritor, salientando o facto de "ter sido militante do PCP até ao seu falecimento".  Orlando da Costa chegou a integrar o Comité Central do PCP.

Orlando da Costa é pai do actual ministro da Administração Interna, António Costa e do jornalista Ricardo Costa.

O funeral segue hoje, Sábado, pelas 18 horas, para o cemitério do Alto de São João, em Lisboa, onde pelas 19 horas o corpo será cremado.

Goa sempre presente

Orlando da Costa foi sempre uma figura de destaque entre os goeses de Portugal, sempre presente nas actividades da comunidade e disposto a apoiar e participar em diversas iniciativas visando a promoção da identidade goesa. Aliás, mesmo na sua obra literária, denota-se um “regresso às origens” durante a última década, dedicando-se os seus escritos e adaptações crescentemente a Goa.

Sócio da Casa de Goa, foi homenageado pela associação em Junho de 2002, marcando o 50º aniversário da sua vida literária, com uma exposição biobibliográfica. Aquando da inauguração referiu que tendo as suas raízes e experiência de infância e de adolescência em Goa, fez-se adulto em Portugal.

Na ocasião sublinhou que “na largueza de horizontes do humanismo, que defendo e cultivo, Goa e a sociedade goesa ocupam o seu lugar de privilégio - o lugar das raízes, a fecundidade afectiva da matriz”. Relembrando que Goa é hoje um dos vinte e cinco estados da Índia, defendeu que “o povo de Goa tem parte dos seus destinos nas mãos - o político, o económico, o cultural - e terá de saber defender sem conflitualidades desnecessárias a sua identidade própria e os seus interesses. E Goa, conta com todos os seus filhos, descendentes de várias gerações, para a preservação e difusão de um património rico e inconfundível, com respeito e dignidade, porque nós somos como que o seu prolongamento, e em Portugal, parte importante da sua diáspora”.

Na mesma ocasião a investigadora Rosa Maria Perez referiu-se também ao seu último livro “O último olhar de Manú Miranda” afirmando que “em dias em que as saudades de Goa são muito fortes, abro O último olhar de Manú Miranda, e fico silenciosa e deliciada, a ouvir a criada Bostian, o médico parsí, o cocheiro Ismal, o pároco de Vernã, o fotógrafo Mauzó. Depois fecho os olhos e ouço os coqueiros sacudidos pelo vento, restos de conversas em concanim, estrofes de um mandó”.

Igualmente simbólica foi a transposição para o palco da dramaturga da sua obra “Sem Flores Nem Coroas” (Publicações Dom Quixote, 2003) retoma esse mundo distante do período colonial português, numa Goa que ainda não tinha luz eléctrica, mas incide nos seus três actos na questão da “perda da Índia” ou na invasão de Goa, Damão e Diu. Orlando da Costa regressa às terras de origem e, com todo o atrevimento literário em pleno período marcelista, escreveu esta peça de denúncia e de protesto no seio de uma família goesa que vive o drama da perda de identidade por entre conflitos que de todo se não resolvem ou entendem, mas na intenção denunciadora de uma realidade social e humana que sempre clamava por justiça.         
Ainda sob a forma de um teatro bem empenhado, Sem Coroas Nem Flores, pela profunda intensidade dramática, é de facto um claro desafio, como observa Luiz Francisco Rebello no prefácio da reedição, “para um encenador a quem não seja indiferente colocar a sua capacidade criativa ao serviço de uma dramaturgia de genuína matriz portuguesa”.

Referindo-se à adaptação, Orlando da Costa recorda num Boletim da Casa de Goa (2003) que a acção na sua obra “decorre nessa noite – madrugada de 18 para 19 de Dezembro de 1961 - noite de “invasão” e “libertação” em que Portugal vê posto termo à sua soberania nesse território da antiga Índia Portuguesa”.

E explica que o fim da soberania portuguesa sobre Goa, Damão e Diu “não foi o único elemento motivador, mas acaba por ser determinante no culminar de um conflito vivido no seio de uma família goesa, abastada e cristã – conflito de ordem familiar e sobretudo no conflito em que a personagem Pai se debate numa pungente agonia de homem vendido e que se sente traído, numa agonia que acompanha, após algumas frustradas tentativas de uma acção militar, de terra arrasada e de total sacrifício de vidas ordenado por Salazar, ele próprio, - uma agonia, dizia eu, que acompanha até à morte a retirada das tropas portuguesas. Para estas é a hora da rendição que chegou”.

O seu primeiro romance, “O Signo da Ira”, também se situa em Goa, focando de forma expressiva as condições precárias em que muitos dos goeses viviam sob domínio colonial português. A obra ganhou o prémio “Ricardo Malheiros”, da Academia das Ciências de Lisboa, em 1961.

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