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Categoria > À conversa com...

Emb. Ferreira Marques: «Portugueses continuam a ter a imagem da Índia do encantador de serpentes»

10/10/2004   |  Constantino Hermanns Xavier

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Numa entrevista exclusiva para o Supergoa.com, o Embaixador de Portugal na Índia, Dr. Joaquim Ferreira Marques, aborda diversas temáticas das relações luso-indianas. Lamenta a ignorância portuguesa relativa ao potencial mercado indiano, reivindica uma delegação do ICEP em Nova Deli e aponta o turismo e a construção civil na área das infra-estruturas públicas como pistas a serem exploradas. Na esfera cultural defende a promoção da língua portuguesa numa perspectiva de negócios e sublinha o potencial de Goa como ponto de entrada para o subcontinente indiano.

Supergoa.com: Senhor Embaixador, na sua opinião qual o papel reservado a Portugal no contexto da crescente aproximação entre a União Europeia e a Índia?

 

Embaixador Ferreira Marques: No relacionamento da Índia com a União Europeia (UE) Portugal tem tido um papel muito importante porque fomos o primeiro país a organizar a primeira a cimeira UE-Índia, em 2000, durante a nossa Presidência. Até aí a Índia não estava equiparada a outros grandes países como os Estados Unidos ou a China.

 

Ao mesmo tempo promovemos também o primeiro fórum de negócios UE-Índia, e que desde então se tem repetido todos os anos, um com presidência belga, outro aqui em Deli, outro sob presidência dinamarquesa e mais recentemente um com a Ítália.

 

Quanto ao potencial das relações económicas Índia-EU, é enorme. A UE é o primeiro parceiro comercial da Índia. Mas isto é algo de que os indianos ainda não se apercebem. Primeiro porque para eles o conceito de UE é um pouco complexo ainda. Entendem pouco a capacidade de uma Europa como potencial consumidora de bens indianos, como potencial gigante económico.

 

Embaixador Ferreira MarquesDepois, porque esta nova etapa do alargamento complicou as suas relações com a Europa: tinham relações privilegiadas com os países que pertenciam ao bloco socialista e vêem-se agora forçados a reorientar as suas relações económicas no quadro da UE.

 

E ainda têm um problema a resolver internamente porque a Índia saiu de um regime económico muito fechado e só agora tem vindo a abrir-se ao mundo. A legislação interna ainda é muito proteccionista. Assim, pode-se dizer que a Índia está a duas velocidades, o que é visível no próprio Governo.

 

Há sectores que entendem que a Índia se devia abrir mais rapidamente, e há outros, por razões de política interna e eleitoral, que entendem que se deve caminhar mais devagar.

 

 

No relacionamento com a UE, entende que a Índia ainda prefere uma política bilateral a uma aproximação multilateral?

 

O problema é que há uma falta de percepção por parte da Índia de que a UE vai continuar a ter uma abordagem bilateral, embora no âmbito geral o negócio passe a ser generalizado em termo de regras comunitárias. As regras são comunitárias e comuns aos 25 países e falta a consciencialização indiana desse fenómeno.

 

Outra questão é que as relações da Índia com a Europa são ainda muito frágeis, comparadas, por exemplo, com as da Índia com os Estados Unidos (EUA). A maioria dos estudantes indianos que vão fazer os cursos de graduação e pós-graduação no estrangeiro vão para os Estados Unidos. Só este ano foram 60 mil, fazer MBA’s, doutoramentos etc.

 

E enquanto nos EUA só necessitam de uma língua com a qual já estão normalmente familiarizados, na Europa temos várias línguas. E embora cada vez mais falemos várias línguas, há a percepção indiana de que a língua ainda é um obstáculo grande no relacionamento com a UE. Acham por exemplo que são incapazes de negociar com Portugal porque pensam que não falamos inglês. E isso não corresponde à verdade.

 

 

Embaixada de Portugal em Nova Deli

 

Por isso mesmo, Portugal tem que apresentar aos indianos uma realidade mais atraente...

 

Nós precisamos fazer um esforço, principalmente os empresários portugueses. Quando nós estabelecemos relações diplomáticas com a Índia, em 1974, veio cá pouco tempo depois uma grande comitiva de empresários com o Dr. Mário Soares. Mas os resultados não foram os esperados. Por um lado, porque a Índia era um país com uma pesada orientação socialista, com regras de comércio muito fechadas e isso condicionou desde já qualquer investimento de sucesso.

 

Mas, por outro lado, porque negociar com a Índia pressupõe que se conheça o mercado. E os empresários e responsáveis portugueses continuam a ver a Índia como um todo, desconhecendo as suas particularidades. O que é um pressuposto errado, porque a Índia são 28 estados, alguns altamente desenvolvidos, outros muito atrasados.

 

 

Será difícil então encontrar uma empresa portuguesa com dimensão e capacidade para investir a nível nacional na Índia?

 

Eu acho que não é uma questão de ter capacidades ou não. As empresas portuguesas simplesmente não aproveitam as oportunidades que a Índia lhes oferece. A Índia está a fazer um grande esforço no desenvolvimento das suas infra-estruturas, na construção de auto-estradas, aeroportos, portos, redes telefónicas, caminhos de ferro etc. E apesar de as empresas portuguesas serem confrontadas muitas vezes com cativantes concursos públicos, nunca avançam.

 

A um nível menor, há obviamente lojas e pequenos comerciantes que negoceiam entre Portugal e a Índia: Mas isso é trivial e não traz ganhos consideráveis no plano económico bilateral.

 

Por exemplo, enquanto que os espanhóis já vieram investir no sector vinícola na Índia, esperando bons ganhos a longo-termo, os poucos vinhos portugueses que porventura encontrar na Índia não vêm directamente de Portugal, mas via Inglaterra. Chegam cá com preços muito elevados e pouco competitivos.

 

Esta nossa ignorância acerca da Índia e ausência de capacidade de investimento espelha-se também no desconhecimento do mercado indiano de tecnologias de informação e de computadores.

 

 

Mas Portugal não é muito forte nesse sector...

 

Mas Portugal poderia utilizar a Índia como parceiro na internacionalização. A Índia ainda tem mercados que desconhece, como a África e a América Latina. São regiões que nós conhecemos bem e onde temos experiência e bons investimentos.

 

Se pudéssemos aliar o know-how das empresas indianas nos seus nichos específicos à experiência de internacionalização das companhias portuguesas em África e na América do Sul, isso traria enormes benefícios num campo que nunca foi explorado nem por nós, nem por eles.

 

 

Um aspecto do interior da EmbaixadaE que vantagens oferece a Índia às empresas portuguesas, comparativamente aos PALOP ou a América Latina?

 

Deve-se investir na Índia porque é um país que tem um crescimento de 7% e é neste momento a quarta economia mundial. Claro que entre um bilhão de pessoas só são 300 milhões que têm um poder de compra considerável.

 

Mas um mercado de 300 milhões é um mercado enorme. E isso é o que os empresários portugueses desconhecem, não querem conhecer ou não têm coragem de enfrentar. E este enorme mercado pode facilmente ser dividido em mercados mais pequenos.

 

Só Bombaim tem 25 milhões de pessoas, equivalente à população de muitos países europeus. Nova Deli tem 14 milhões de pessoas. Nem todas as classes têm o mesmo poder de compra que as congéneres portuguesas, mas há uma emergente e vasta classe ascendente em termos económicos. A circulação automóvel ou a venda de electrodomésticos, por exemplo, reflectem o crescimento de uma classe média cada vez maior.

 

E é esse o sector onde os portugueses deviam investir cada vez mais. Mas não se pode esperar muito, se observarmos que todos os países da UE e até os seus dez novos membros, à excepção de Malta e dos três países bálticos, têm cá uma delegação comercial e económica. Só Portugal prima pela ausência. São precisos estudos para conhecer o mercado indiano e penetrá-lo efectivamente. Nós não temos os instrumentos e isso não nos ajuda em nada a explorar as potencialidades da Índia.

 

 

A nível burocrático o sistema federal indiano e o excessivo centralismo administrativo são apontados por alguns investidores como obstáculos. Observa estas dificuldades na prática?

 

Esses obstáculos não se encontram só a nível central, mas também a nível estadual. Mas compete aos empresários conhecer as estruturas. Com uma vantagem. É que a União Europeia, enquadrando todos os países, tem dado um grande apoio às empresas europeias nesse processo. Tal tem transbordado para outras áreas, às vezes de conflito, como no caso do confronto entre a UE e a Índia na OMC.

 

Mas se os belgas têm aqui 150 empresas, os holandeses mais de 200, os alemães 600 e os ingleses presumo que mais de 1000, pergunto-me porque é que só mesmo nós ficamos de fora. E todos fazem negócios não só a nível comercial directo, mas também a outros níveis, o caso do armamento, por exemplo.

 

Se os portugueses continuarem a ter a imagem da Índia do encantador de serpentes, então estamos condenados. Acho que essa é a imagem dominante, muito embora eu veja aqui uma Índia completamente diferente. E até temos excelentes relações políticas com a Índia que servem de contexto a uma aproximação económica.

 

Temos o contexto legislativo completo, todos os acordos possíveis assinados no sector cultural e económico. Agora só falta dar andamento de forma prática. Mas não podemos obrigar os empresários a vir para cá se eles não quiserem vir.

 

 

Conclui então que Portugal não vê a Índia como prioridade?

 

Não, não vê. Entende que as prioridades são outras, como a Europa, a África e a América Latina. Mas o curioso é que num momento de crise, em que todos querem exportar e fazer novos negócios, ninguém quer vir para um país emergente como a Índia. Especialmente atendendo ao enorme capital de simpatia que temos na Índia, baseado na presença histórica.

 

Obviamente que essa presença também alimenta sectores que vêem Portugal com maus olhos, mas isso encontra-se em todo o lado. Há ainda os “freedom fighters” [combatentes anti-colonialistas] de Goa, que afirmam que Portugal é um país colonizador e retrógrada, mas esquecem-se que esse é o Portugal dos anos 60.

 

 

Embaixador Ferreira Marques e Constantino Hermanns Xavier

 

A história então afinal ainda pesa nas relações luso-indianas...

 

Pesa, mas só neste sector que não conta para a economia. Se falar com os empresários indianos, eles conhecem Portugal muito bem. Tenho contactado com o dono da Mahindra [multinacional indiana da indústria automóvel], tentando levá-lo a investir em Portugal, e ele ficou entusiasmado com a ideia de poder utilizar Portugal como centro de distribuição para África e a América Latina. Sendo que também temos as nossas qualidades para exportar para a própria Europa. Isso os empresários conhecem.

 

Mas se não os convidarmos e não promovermos as vantagens que Portugal oferece na atracção de investimentos, obviamente que eles não virão para Portugal. Escolherão, como têm escolhido, países como a Espanha, por exemplo. Os espanhóis vêm frequentemente à Índia com delegações económicas e de turismo. E nós não temos ninguém, mesmo sendo o potencial palpável.

 

O meu colega Embaixador Henriques da Silva, antes de sair daqui há dois anos, foi a Goa, onde o Governador e o ministro-chefe lhe apresentaram contratos na área das infra-estruturas para que Portugal pudesse concorrer. Levou-os para Portugal e não obteve nem uma única resposta. Como é que podemos fazer uma promoção efectiva de Portugal na Índia, quando as empresas e as autoridades portuguesas não dão continuação ao trabalho desenvolvido por cá?

 

 

E turistas portugueses para a Índia? Têm sido muitos a visitar o país?

 

Passa-se a mesma coisa que no sector dos investimentos: se os tour operators não quiserem fazer negócio, nada a fazer. A Índia só recebe poucos milhões de turistas por ano, mas o potencial turístico é enorme. Ao nível de construção de hotéis, por exemplo, estão de abraços abertos a investimentos hoteleiros estrangeiros.

 

Ao nível da aviação temos um acordo não explorado entre a Índia e Portugal, incluindo vôos charter. Embora a distância de vôo directa entre Lisboa e Cuba ou Goa seja a mesma, não há iniciativa e Goa mantém-se inexplorada como destino turístico para os portugueses.

 

Por outro lado, os tour operators portugueses ainda não se aperceberam do emergente mercado de turismo indiano. Especialmente no que toca o turismo cultural, área que poderia render benefícios: muitos goeses são fervorosos católicos e poder-se-ia explorar Fátima e outros locais de peregrinação na Europa.

 

 

Igreja de Imaculada Conceição, Panjim, GoaNo caso de Portugal vir a dar uma maior prioridade aos países asiáticos, Goa poderá servir de ponto de entrada para a Índia, assim como Macau o faz para a China?

 

Claro que sim, especialmente porque Goa é considerado o estado modelo na Índia, um estado pequeno com um milhão e meio de pessoas, mas com um grande capital de simpatia pelos portugueses. Mas não temos lá feito nada, e resta somente a presença histórica e cultural. Em termos económicos a presença é nula.

 

Poder-se-ia, dada a proximidade de Goa com Bombaim, explorar o potencial de um eixo com essa cidade que é a mais rica da Índia, com um enorme capital financeiro. Mas quando falo nesses dois estados, não nos podemos esquecer de Nova Deli, uma cidade que em termos populacionais deverá atingir em 2020 os 25 milhões de habitantes.

 

O potencial é enorme, e não precisamos abarcar um bilhão de pessoas na Índia, é mais uma questão de seleccionar bem os locais e sectores onde investir. E o que faz pena a um embaixador português aqui é observar como todos os outros fazem negócio e nós não, embora tenhamos muito mais portas abertas e capacidade, tanto a nível cultural como político.

 

 

Portanto Goa é uma dessas portas abertas?

 

Sim, mas não é só Goa. Os portugueses estiveram em Goa e por isso é obviamente o local mais conhecido. Mas não nos devemos esquecer do Querala, de Cochim onde há cidades portuguesas, de Diu inexplorado ou de Bombaim, que apesar de ser uma cidade inglesa tem fortes origens portuguesas. É preciso também divulgar as novas cidades indianas que emergem como pólos modernos, casos de Bangalore, Hyderabad etc.

 

 

Goa é então o espelho de uma imagem historicamente ultrapassada, saudosista e deturpada que os portugueses têm da Índia?

 

Sim, acho que é uma imagem de ignorância, porque a Índia evoluiu muito nos últimos anos e vai evoluir cada vez mais. É impossível ignorarmos um país que cresce a um ritmo de 5 ou 7% por ano. A Índia mudou.

 

Se nos anos 60 um primeiro-ministro indiano disse que o país tende a olhar para o Oriente, “look East”, hoje não só estão a fazer isso mesmo, especialmente com os países da ASEAN, como também estão a ter um relacionamento melhor com a China, aumentando as trocas comerciais. Com o Médio Oriente estão a fazer o mesmo. Tudo em detrimento do antigo eixo privilegiado com a União Soviética, embora estejam muito activos no sector petrolífero com as repúblicas da Ásia Central.

 

E embora a Índia tenha conflitos com todos os seus vizinhos sul-asiáticos, está a escolher uma nova abordagem, sendo exemplo disso a celebração de acordos de comércio livre bilaterais, com o Sri Lanka ou o Nepal. E o degelo com o Paquistão é outro sinónimo desse fenómeno.

 

Em geral, no subcontinente indiano, a Índia está a redimensionar as suas relações político-económicas com todos os países vizinhos. A aproximação ao Brasil e à África do Sul vai fazer com que os indianos passem a ver a África e a América Latina com novos olhos. E nós, se ignorarmos estes desenvolvimentos vamos perder o bocadinho que temos aqui.

 

 

E no aspecto cultural, como avalia a presença portuguesa na Índia?

 

Está pobre porque devido às restrições económicas limitamo-nos a muito pouco. Há um leitorado português em Nova Deli, há uma espécie de leitorado e um centro de língua em Goa e um centro cultural aqui ligado à Embaixada que vai fazendo os possíveis para sobreviver. Mas é muito pouco porque não chegam cá livros nem filmes de divulgação de Portugal. Não chegam músicos para divulgar a música portuguesa.

 

Temos contado com a presença muito válida da Fundação Oriente e da Fundação Gulbenkian que têm dado uma grande ajuda. A Gulbenkian por via do museu que estabeleceu em Rachol, em Goa, e em Cochim e por via do intercâmbio de investigadores, tal como a Fundação Oriente. Mas a Fundação Oriente, tendo um delegado permanente em Goa, é que tem feito mais. São essas as duas excepções que têm mantido a chama de Portugal viva por aqui.

 

Há espaço, muito espaço, e os indianos estão completamente abertos a isso. A nível oficial o Instituto Camões tem feito muito pouco, por razões orçamentais talvez. Por isso recorremos muito à chamada prata da casa, com artistas indianos que trabalham com temas relacionados com Portugal.

 

 

Aspecto do Centro Cultural da Embaixada, sala de exposições

 

E que importância tem sido dada à promoção da língua portuguesa, até como veículo para uma aproximaçãona área económica?

 

A língua portuguesa, do ponto de vista histórico-cultural não é importante. Temos de fazer a promoção da língua numa perspectiva de negócios, e não como uma língua que se fala em Portugal, mas como língua falada por 250 milhões de pessoas, no Brasil, em Angola etc. O inglês domina, claro, no domínio das relações internacionais, e a Índia tem aproveitado isso cativando as empresas multinacionais a investir em call-centers e domínios das tecnologias da informação.

 

Mas nós temos de vender o nosso potencial com a nossa presença económica e cultural em África e na América Latina, onde os indianos não têm ainda experiência de investimentos e onde nós podemos prestar os nossos serviços. Nesse âmbito a língua tem alguma importância.

 

O Centro Cultural aqui em Deli tem muitos alunos universitários na aprendizagem do português, mas se dermos maiores incentivos virão outros tipos de pessoas, como jovens empresários e investidores. Por exemplo, quando os indianos foram para Timor e Angola, no quadro das Nações Unidas, vieram aprender português aqui. A intérprete do primeiro-ministro indiano por ocasião da visita do Lula da Silva foi uma senhora aluna aqui do Centro que agora é leitora na Universidade de Deli.

 

 

Para mudar o panorama das relações luso-indianas, que caminhos concretos aponta a serem explorados pela sociedade civil portuguesa ou até pela comunidade goesa em Portugal?

 

As autoridades que superintendem as actividades económicas têm que passar a ver a Índia como um enorme potencial, como o fazem os Estados Unidos, a Inglaterra, a França ou a Alemanha, que apostam aqui e têm os seus dividendos. Nós evidentemente temos que o fazer à nossa escala: somos pequenos, somos poucos, mas também não pretendemos invadir a Índia.

 

Temos que seleccionar sectores e estados e trabalhar. E vir para cá, porque se as pessoas não vierem para cá, não estudarem a Índia in loco, não podem fazer negócios com sucesso. E acho que nesse quadro seria extremamente importante Portugal ter cá uma delegação do ICEP para estudar a evolução da Índia e compreender os principais processos e tendências.

 

A Índia tem, por exemplo, um marcado de farmacêuticos enorme, caso similar nas biotecnologias, no sector agroalimentar etc. São sectores com que todos negoceiam, menos Portugal.

 

 

Está cá há um ano na Índia. Como tem experienciado pessoalmente esta estadia neste país? Que Índia viu?

 

Eu vim à Índia há 11 anos, com o Dr. Mário Soares. E a noção que eu tenho é que entre o que eu vi nessa altura e o que eu vejo hoje há uma enorme diferença. É uma Índia que evoluiu muito e está a evoluir diariamente a passos largos. A Índia tem uma democracia que funciona. Tem os seus altos e baixos, claro, mas é uma democracia.

 

A nível económico nota-se também essa evolução, é uma Índia em crescimento. E o que se nota ainda mais é um orgulho que os indianos têm nesse crescimento, notando que estão melhores a cada dia que passa, sentindo isso em casa. Um futuro radioso.

 

Não é que a Índia vá acabar com a pobreza, não vai acabar nem pode acabar. As estruturas socio-económicas e religiosas não permitem isso. Mas vai permitir a uma larga camada de várias centenas de milhões ter um nível de vida melhor. E os indianos, sentindo essa mudança, estão a alargar os seus horizontes.

 

(nota: Entrevista conduzida por Constantino Hermanns Xavier, em Nova Deli, em Dezembro 2003) © SuperGoa.com 2004

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