O Vice-presidente da Assembleia da República Portuguesa e Presidente da Casa de Goa, Narana Coissoró, está a ser alvo de duras críticas em Goa. Os comentários que teceu acerca dos acontecimentos de 1961 não foram bem recebidos por sectores mais radicais, e apelidados de "anti-Índia". Um ministro do Governo central avisa que poderá vir a ser impedido de entrar em Goa.
As declarações de Narana Coissoró sobre a invasão de Goa pela Índia em 1961 originaram protestos dos combatentes pela liberdade e levaram um ministro indiano a sugerir que o vice-presidente da Assembleia da República seja impedido de entrar na província.
Na inauguração de uma exposição de pintura em Goa, Narana Coissoró disse que o primeiro-ministro indiano em funções aquando das lutas pela liberdade, Jawaharlal Nehru, e outros membros do Congresso não apoiaram a acção militar da Índia naquela região.
"O então ministro da Defesa Krishna Menon ordenou a invasão militar como um acção eleitoralista, poucos dias antes das eleições em Maharashtra", referiu Narana Coissoró. Se a acção militar não tivesse sido ordenada, o Governo português da altura teria transferido pacificamente Goa para o seu povo num prazo de três anos, acrescentou.
O vice-presidente da Assembleia da República fez questão de salientar aos jornalistas presentes na inauguração que, na altura, todos ficaram surpreendidos que um país baseado em princípios de não-violência e não-alinhamento como a Índia tivesse tomado uma atitude tão drástica.
Para justificar a sua posição, Coissoró referiu-se a revelações encontradas em documentos secretos pertencentes ao regime ditatorial de Salazar, em vigor em Portugal em 1961, aquando da luta de Goa pela libertação.
A reacção do ministro das Obras Públicas indiano, Sudin Dhavlikar, às declarações de Narana Coissoró foi forte e um comunicado do seu gabinete avisa o político português das "terríveis consequências" se continuar a ferir os sentimentos dos goeses ao divulgar "propaganda anti-Índia".
Ameaçando com uma acção directa contra o político português, o ministro sugeriu que se impeçam os elementos "anti-Índia" como Coissoró de entrar em Goa. O responsável governamental rejeitou ainda as verbas prometidas pela Fundação Oriente para o restauro do complexo do palácio Adil Shah.
Nanara Coissoró salientou que sabia que o ministro Manohar Parrikar tinha procurado a intervenção da Fundação Oriente para a restauração daquela estrutura, mas recordou a aversão que aquele responsável indiano teve no passado pelos fundos portugueses. "Espero que não haja qualquer inconveniente causado por pessoas que não querem dinheiro vindo de Portugal, como aconteceu no passado", frisou.
Reagindo aos comentários de Narana Coissoró acerca da forma como decorreu a transferência de Goa para a Índia, o ministro Sudin Dhavlikar defendeu que se Portugal pretendia deixar a região pacificamente não teria destruído as infra-estruturas antes de se render às forças indianas. Por seu lado, o combatente pela liberdade Nagesh Karmali disse que as declarações "anti-Índia" de Narana Coissoró se destinaram a fazer com que a sua presença em Goa não passasse despercebida, "habituado como está a causar controvérsia deliberadamente".
"Apesar de ser de Goa, Coissoró foi para Portugal em 1950 e desde então tem sido português. Aliás, a sua conversão de Narayan Kaissare para Narana Coissoró diz tudo", criticou o combatente.
Referindo que os comentários de Narana Coissoró minimizam o papel dos combatentes pela liberdade que Portugal torturou durante anos, Nagesh Karmali lembrou que o Governo indiano não podia ter continuado um espectador silencioso. "Coissoró apoiou o ditador Salazar e mais tarde tornou-se um forte protagonista da democracia após a queda do ditador, em 1971", disse Karmali. "Nestas circunstâncias, Coissoró não tem o direito de comentar a luta pela liberdade de Goa ou Nehru", acrescentou.
O combatente e jornalista Flavian Dias rejeitou a posição defendida por Narana Coissoró questionando, se fosse verdadeira a intenção de deixar Goa, a razão por que Portugal demorou uma década a libertar as colónias africanas. Salazar não queria certamente transferir Goa e se quisesse seria por causa do Partido Comunista em Portugal, defendeu.
Flavian Dias lembrou ainda que foi feita uma proposta a Portugal pelo Governo indiano, que oferecia uma compensação ao poder colonial, como aconteceu com França, mas o Governo português não respondeu. Por outro lado, foram realizadas conversações secretas entre Nizam de Hyderabad e Portugal para que continuassem o seu regime e, como resultado, Hyderabad foi anexada pela Índia pela força.
"O nosso maior medo era que Goa se tornasse uma base norte-americana e foi essa a razão para a urgência em ordenar a acção militar", acrescentou Flavian Dias.
Durante a visita do então Presidente Mário Soares a Goa, no início de 1991, Narana Coissoró causou grande irritação ao declarar que Goa não tinha uma democracia, mas sim uma "dinheirocracia", referindo-se à corrupção da classe política.
Direito de Resposta, publicado no jornal “Público”, Quinta-feira 20 de Maio de 2004
Narana Coissoró em Goa
O PÚBLICO na edição de 16 de Maio (pag. 10) publicou uma extensa notícia sob o título “Índia – Declarações de Narana Coissoró provocam protesto em Goa”. Sobre o seu teor esclareço o seguinte:
1. Não existe qualquer “ministro de Obras Públicas indiano Sudin Dhavilcar”, mas o ministro de Transportes Terrestres e Auto-estradas (minister of Road Transport and Highways) que era o major-general (reformado) R.G. Khanduri.
2. Nenhum ministro do Governo da Índia (agora em gestão) emitiu qualquer comunicado sobre as declarações do signatário, proferidas no Centro Internacional de Goa, em 09/05/04, na inauguração da exposição de pintura naquela instituição.
3. Foi com revoltante surpresa que o signatário leu no PÚBLICO o pretenso “comunicado”, pois a conferência proferida no referido Centro Internacional de Goa, a convite do seu presidente, versou sobre a “identidade de Goa e dos goeses”, foi aplaudida pelos presentes e ninguém fez qualquer observação sobre “propaganda anti-indiana”, o que, aliás, seria um enorme absurdo.
4. Nunca foi de tradição dos governantes indianos emitirem comunicados sobre conferências proferidas pelas universidades ou organizações culturais, sendo a Índia, como se sabe, uma grande democracia em que é escrupulosamente respeitado o direito de opinião e de livre expressão.
5. Tudo leva a crer que a notícia se tenha baseado em relatos inventados, e postos a circular de má fé, que ferem a dignidade moral e intelectual do signatário.
6. Quanto ao tal Naguesh Karmali, não foi possível ao signatário obter nos meios políticos e culturais, quer em Goa quer em Nova Deli, qualquer referência a esse intitulado “combatente pela liberdade”.
Agradeço a publicação deste esclarecimento, visto a notícia afectar a minha probidade moral e política de parlamentar e o cargo de vice-presidente da Assembleia da República que ocupo presentemente.
NARANA COISSORÓ
VICE-PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA