Em 2006 celebra-se o quinto centenário do nascimento de S. Francisco Xavier, apóstolo das Índias e co-fundador dos Jesuítas. Havendo em Goa já alguns preparativos para esta efeméride, a letargia do lado português foi aproveitada pelos vizinhos espanhóis que já têm uma comissão incumbida dos preparativos.
AS AUTORIDADES espanholas vão assinalar os 500 anos do nascimento de São Francisco Xavier «sem complexos» e «explorando a fundo o seu legado». Uma iniciativa que ultrapassa os projectos do Governo português para assinalar a vida e obra do apóstolo das Índias, co-fundador dos Jesuítas e incumbido pelo rei D. João III da tarefa de evangelização da Ásia.
Portugal atrasou-se por questões burocráticas, dificuldades orçamentais e falta de decisão política. Espanha aproveitou e reclama a «paternidade» das comemorações do santo. «Não se pode fazer nada contra a verdade histórica. Mesmo se o seu nome está ligado às descobertas marítimas portuguesas, não é menos verdade que São Francisco Xavier nasceu em Navarra, sendo pois um santo espanhol». As declarações são de Rafael Rodriguez-Ponga, director-executivo da recém-criada comissão oficial espanhola para a comemoração do Vº centenário do nascimento do «Apóstolo das Índias», que acha mesmo «não existir razão para que os portugueses se sintam ofendidos com a iniciativa do Governo espanhol». Assim, será «sem complexos» que Espanha procurará explorar a fundo o legado do santo. «cuja figura histórica se nos apresenta hoje como representação de um ideal de comunicação e de abertura entre os povos e as culturas da Europa e da Ásia», lê-se no Real Decreto aprovado pelo Governo de José María Aznar há três semanas.
Segundo o mesmo texto, o santo - nascido em 1506, no Castelo de Javier, perto de Pamplona, e cujos restos mortais repousam em Goa - «estudou em Paris, predicou em Portugal, evangelizou o arquipélago malaio, em Ceilão e no Japão», sendo assim «uma figura histórica indiscutível e um elemento de conexão da história da Espanha com a Ásia».
A Rodriguez-Ponga junta-se, como homem forte da organização, Luis Miguel Enciso, conhecido pelas suas atitudes pouco próximas de Portugal. Como comissário de Espanha na Expo-98, Enciso protagonizou um incidente ao destacar, à entrada do pavilhão daquele país, a reprodução de uma gravura do século XVI ilustrando a chegada a Lisboa de Felipe II, precisamente o monarca que inaugurou os 60 anos de domínio espanhol.
Um ano de espera
O projecto das comemorações circula há mais de um ano nos gabinetes das autoridades portuguesas. Depois do navegador navarro Júlio Lopez, dono da sociedade «Hispania Navegantes», ter tentado vender a Portugal a ideia de um «Périplo Xavier», a proposta perdeu-se entre os vários ministérios: da Economia à Cultura, passando pelos Negócios Estrangeiros e a Defesa.
O projecto passava pelo recurso ao navio-escola Sagres, que numa viagem de reconstituição do percurso do santo, com a duração de um ano, funcionaria como uma espécie de embaixada itinerante. Saindo da Torre de Belém, em 2005, a viagem da Sagres terminaria no Japão, precisamente em 2006, ano do Jubileu do nascimento de São Francisco Xavier.
O navio seria reequipado com material técnico e informático, pago por patrocinadores japoneses, o que permitiria a ligação diária à internet das 1300 escolas dos jesuítas. Até agora nada está decidido.
«Por culpa da burocracia, da falta de cooperação entre os diversos serviços e por problemas orçamentais, o assunto entrou numa via morta», diz Julio Lopez, acrescentando que «os ‘sponsors’ estão desanimados e vemos com consternação como Espanha procura ultrapassar Portugal».
Um dos problemas principais prende-se com a falta de um responsável pela coordenação portuguesa da iniciativa. Sem comissário nacional, o assunto corre ainda por vários ministérios. O EXPRESSO apurou que, desde finais do ano passado, o ministro da Cultura avalizou a iniciativa. Mas até agora nada avançou. Com um custo previsto de mais de cinco milhões de euros, as comemorações correm o risco de se perder nas gavetas oficiais.
Uma ideia de milhões adiada há um ano
AS COMEMORAÇÕES dos 500 anos do nascimento de São Francisco Xavier - que se celebram em 2006 - aguardam a decisão do Governo português desde Novembro de 2002. Uma proposta para assinalar a vida e obra do padre que serviu o Rei D. João III chegou nessa altura aos gabinetes de Durão Barroso e do ministro da Cultura. Previa uma viagem do navio-escola Sagres, a reconversão do primeiro colégio dos Jesuítas em Portugal (actualmente entregue ao Ministério da Defesa) e mesmo um número especial da revista «National Geographic» e um documentário exclusivo do Discovery Channel sobre a passagem do missionário pela Ásia. Até hoje não houve resposta.
A viagem da Sagres passaria por vários portos asiáticos, duraria um ano e serviria como embaixada cultural e económica de Portugal. A passagem do navio levaria mesmo a representação nacional a vários certames - entre os quais as exposições de Osaka e Aichi - onde se esperam mais de 70 milhões de visitantes.
Contactados os vários organismos oficiais envolvidos, o EXPRESSO pôde constatar o atraso do projecto. Os responsáveis pela Cultura garantem estar a estudar o assunto e esperam mesmo por uma decisão «até ao final do mês». No entanto, não está definido quem lidera o processo e ainda menos quem poderá financiar os custos do projecto, orçado em mais de cinco milhões de euros.
Toda esta indecisão do Governo não impediu que os jesuítas portugueses fossem contactados para participar nas comemorações. O provincial da Companhia de Jesus, padre Amadeu Pinto, recorda que em 2003 foi contactado, por diversas vezes, pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC): «Foram efectuados diversos telefonemas pela Dra. Natália Correia Guedes, em nome da SEC, onde ainda abordou a concretização de uma exposição...» Todavia, este contactos, salienta o sacerdote, «nunca mais tiveram continuidade».
De facto, Natália Correia Guedes, convidada informalmente pelo Ministério da Cultura para integrar o grupo de trabalho para as comemorações, em Novembro passado já dava conta a Pedro Roseta da sua preocupação perante a indecisão governamental.
Para o responsável máximo dos jesuítas portugueses, esta situação «transmite uma má imagem de Portugal», tanto mais que São Francisco Xavier, «deve ser considerado tão espanhol como português, pois foi ao serviço de Portugal que ele evangelizou».
Entretanto, os responsáveis dos jesuítas portugueses, espanhóis e italianos vão reunir-se já este mês em Sevilha, «para delinear o projecto das comemorações». Tudo à margem de Lisboa e com o apoio espanhol, anota o padre Amadeu Pinto, que considera «lamentável que Portugal não esteja associado a uma ideia que projecta o país no exterior, quando se constroem estádios de futebol sem critério, e cujos dividendos se desconhecem».
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