Se em Portugal a gastronomia goesa continua a fazer as delícias dos portugueses, em Goa, 42 anos depois da partida dos portugueses, o azeite de oliveira, o vinho e o bacalhau voltam às mesas. Várias empresas têm apostado na importação de produtos tradicionais portugueses, embora o volume total de transacções realizadas entre Lisboa e Goa seja ainda diminuto.
451 anos de colonialismo português deixaram as suas marcas nos hábitos gastronómicos goeses. Especialmente os goeses católicos cedo sentiram falta de muitos produtos típicos portugueses que, nos anos 50, já tinham também conquistado o paladar de muitos goeses. Para além do bom queijo português, era também apreciado um bom vinho tinto, o tradicional bacalhau e o be português azeite de oliveira.
Sendo que entre 1961, em seguida à invasão de Goa, e o ano de 1974, Portugal e a Índia tiveram as relações diplomáticas e económicas cortadas, muitos deste produtos não voltaram às mesas dos goeses. Depois, mesmo com novos acordos diplomáticos assinados, em Dezembro de 1975, o modelo socialista e proteccionista indiano quase que impossibilitou a realização de qualquer importação portuguesa.
As taxas de importação excediam os 100% e, do lado português desconhecia-se também o potencial deste mercado goês ávido de produtos genuinamente portugueses.
Já a partir de 1990, com a liberalização do mercado indiano, surgiram as primeiras possibilidades de importação de produtos portugueses a preços acessíveis. No entanto, em mais de três décadas, os gostos e as preferências foram-se alterando. A nova geração prefere certamente uma suculenta pizza e uma Coca Cola a um bacalhau regado com azeite de oliveira.
No entanto, especialmente entre as gerações mais idosas, permanece o gosto lusitano. Do lado português, depois da euforia inicial por tudo o que era estrangeiro e importado, lentamente começa-se a apostar no conceito de qualidade do produto tradicional português (seja em termos de qualidade, ou também de confecção natural e ecológica).
Reunidas as condições, e tendo em conta o espírito de inicitiva de alguns empreendedores goeses, os produtos tradicionais portugueses voltam agora à mesa goesa.
Bacalhau, tinto e azeite
O caso mais interessante é o da loja "A Nau", situada no centro da capital de Goa, Panjim. A proprietária, Nalini de Souza, é uma jovem goesa que cresceu em Portugal (onde dançou no grupo Ekvât, da Casa de Goa) e depois casou e estabeleceu-se definitivamente em Goa. A Nau não se limita a importar os tradicionais bacalhau (Riberalves), azeite (Oliveira da Serra), sardinhas enlatadas e atum, mas também artigos de decoração interior tão estimados em Goa, como para a árvore de natal, candelabros, toalhas de mesa e de banho. Já os vinhos branco, tinto e rosé são engarrafados em Portugal e vendidos a preços de importação na loja em Panjim. O site Internet está em www.anau4u.com
Mas o caso mais conhecido de venda de produtos portugueses é a firma Costa & Company Private Ltd (www.28costavin.com). Com mais de 100 anos de história, este estabelecimento sempre se centrou na venda de produtos portugueses. Para além da importação de produtos portugueses, que aumentou muito nos últimos anos, a empresa Costas especializou-se ela mesmo na produção de vinhos e gastronomia portuguesa em Goa. Os seus vinhos, produzidos em Goa, vendem-se por toda a Índia . Fundada pelo grande intelectual goês de Margão, Bernardo Francisco da Costa, a empresa vende peixe enlatado, a tradicional bebinca goesa, mas também um vinho do Porto goês e uma variedade de outros vinhos e espumantes, como o "Soave Seco".
Para além de grandes investimentos nos sectores da construção (dando especial atenção à arquitectura indo-portuguesa) e do lazer (motos de água), a empresa tem a sua própria galeria de azulejos (Velha Goa) onde artistas goeses e portugueses desenham e lançam os mais belos e tradicionais motivos para azuelejos que são postos à venda em Goa. A principal loja situa-se no belo bairro das Fontainhas, em Panjim, onde também se situa o atelier dos artistas. Conceituados artistas goeses, como Mário Miranda, vendem aqui as suas obras. Curiosamente, sendo que muitos azulejos retratam paisagens e monumentos goeses, estes painéis são exportados para todo o mundo.
Ainda neste mês de Dezembro foi a vez de um grupo de três irmãos da família Sequeira, de Raia (um dos quais é o membro da assembleia legislativa de Goa, Aleixo Sequeira), lançar no mercado goês o vinho Castelinho, tinto e branco, de Portugal. Numa cerimónia organizada no hotel Hyatt Regency, em Salcete, com muita animação, foram apresentados os dois tipos de vinhos, que são importados directamente de Portugal, das encostas do Rio Douro. O vinho é depois engarrafado em Goa e distribuído principalmente pelos principais hóteis e restaurantes.
Uma gota de água
Contudo, todos estes produtos são só uma gota de água nas volumosas importações anuais de Goa. Embora o potencial para produtos, serviços e capital português seja alargado, as dificuldades burocráticas, a falta de promoção do mercado goês e indiano em Portugal e a ausência de assistência e apoio especializado vão dificultando os investimentos no eixo Portugal-Goa.