Bombaim (Índia), 02 Dez (Lusa) - Lincon Rodrigues, um jovem estagiário de gestão hoteleira, voltou hoje ao Oberoi-Trident, em Bombaim, para "começar a reorganizar os talheres, as louças e as garrafas que ficaram espalhadas" após o ataque terrorista de 26 de Novembro.
O duplo edifício do Oberoi-Trident, na marginal do Mar Arábico, foi um dos alvos do ataque de há uma semana e palco de uma dramática crise de reféns.
Lincon, natural de Goa, estava no turno habitual da noite, das 19:00 às 04:00, servindo no restaurante italiano Vetro, quando um grupo de homens armados irrompeu pelo hotel aos tiros, cerca das 22:00.
"Depois de atacarem a recepção, alguns terroristas tentaram entrar no restaurante mas eu e os meus colegas conseguimos trancar a porta", contou hoje em Bombaim à Agência Lusa.
Os empregados do Vetro conseguiram também alertar os clientes do restaurante e eles próprios conseguiram escapar do Vetro por uma porta de emergência. Depois ligou pelo telemóvel aos pais, em Corlim, Goa, para os sossegar.
Nessa madrugada, um outro jovem goês ligou para Goa várias vezes, informando os pais de que estava bem, enquanto permanecia retido na cave de um hotel controlado por terroristas.
A história de Boris do Rego, no entanto, acabou mal. Boris era aprendiz de cozinheiro no Hotel e Torre Taj Mahal, no lado contrário da península de Bombaim em relação ao Oberoi. O Taj foi atacado cerca das 21:45 de quarta-feira e o tiroteio iria durar mais de 60 horas, até sábado de manhã.
Quando o irmão, Kevin, lhe telefonou às 04:20 de quinta-feira, a voz de Boris respondeu muito fraca, anunciando o pior, contava hoje o decano da imprensa goesa, "O Heraldo".
Boris era filho de um dos cozinheiros mais conhecidos de Goa, o "chef" Urbano do Rego, veterano do grupo Taj. O "chef" Rego queria que Boris seguisse a mesma carreira.
Vários relatos indicam que, na primeira madrugada do ataque, os terroristas ordenaram ao pessoal da "cozinha aberta" que saísse da cave do Taj, onde muitos funcionários se tinham refugiado, para que preparassem sanduíches para o grupo. Depois, foram mortos a tiro. Boris estava entre eles.
"Em Goa encaramos os ataques de Bombaim com receio e tristeza", explicou hoje o padre Délio Mendonça, director do Saint David Institute, contactado em Panjim por telefone a partir de Bombaim.
"A reacção dos goeses é normal. Bombaim não está muito longe e há muitas famílias goesas lá. E Goa também é um local vulnerável", afirmou o sacerdote. "Há sempre receio de que possa suceder um ataque deste género em Goa, por causa do turismo".
Délio Mendonça adiantou que "a segurança aumentou muito desde os ataques em Bombaim, não tanto na cidade mas para o lado das praias e dos hotéis. Dezembro em Goa é época de muito movimento de estrangeiros".
Em Bombaim, não longe do pequeno hotel onde vive Lincon Rodrigues, reza-se pelas vítimas do terrorismo na igreja de Nossa Senhora das Dores, em Dhobi Talao. "O medo é geral. Todos aqui ouvimos explosões", contou hoje Gisela Fernandes, recepcionista de um hotel próximo do Cinema Metro, outro dos pontos de passagem do grupo terrorista.
"Não tenho medo mas rezo a deus por estar vivo", diz Lincon Rodrigues de regresso ao emprego. Para os outros, resta "uma tristeza tremenda", resume Antony Fonseca, um dos responsáveis do colégio jesuíta de Saint Xavier em Bombaim. Com um alívio relativo, ressalva o padre: "Nada disto foi contra uma religião. Foi contra todo o país".
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