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QUEM QUER FERIR A ÍNDIA ATACA PRIMEIRO BOMBAIM
1/12/2008
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Leonídio Paulo Ferreira
in:
Diário de Notícias Online
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Se acha impossível entender um país com mil milhões de pessoas, 100 línguas, dez religiões e mais de 300 milhões de deuses então o melhor é centrar a atenção em Bombaim. Não há melhor resumo da Índia. Ali reinou o budista Ashoka, ali estiveram os portugueses no século XVI, ali começou a presença colonial britânica, ali foi construída a primeira linha de comboios do país, ali Gandhi lançou em 1942 o grito de "Deixem a Índia", ali os nacionalistas hindus mostraram primeiro a sua força, ali está sediada a principal Bolsa da Ásia do Sul, ali fica Bollywood, que produz mais filmes que a América. A Al-Qaeda sabe disso. E quando odeia a Índia, odeia especialmente Bombaim, a cosmopolita. Por isso a atacou várias vezes, como quando em 2006 explodiu bombas em comboios suburbanos, ou agora, com o atentado ao seu coração.
Estive três vezes na Índia, uma apenas em Bombaim. A imagem que fica é contraditória. Primeiro os gigantescos bairros de lata que rodeiam o aeroporto. Depois, no centro, a imponência da Porta da Índia, onde Jorge V desembarcou em 1911, ou do Taj Mahal, um dos hotéis de luxo atacados pelos terroristas na quarta-feira. Escondidas entre os arranha-céus, lá estão as Torres do Silêncio onde os parsis colocam os seus mortos, e numa das praças o cinema Regal, que resiste à ofensiva dos multiplex, que aos filmes com dançarinas de sari somam os êxitos de Hollywood. Aqui e além uma igreja, com os fiéis de nome Fernandes ou Dias, legado português. E muitos automóveis japoneses, que já eram omnipresentes em 1997 quando em Nova Deli ainda reinavam os Ambassador, os carros da burocracia indiana antes da abertura à economia liberal. No Taj Mahal, esse hotel mandado construir pelo fundador da dinastia Tata, recordo-me do porteiro de turbante, provavelmente sikh, mas também dos homens de negócios ocidentais que no bar pediam Johny Walker. As luzes iluminavam a baía, da qual se vê as traseiras do hotel, não porque o arquitecto se tivesse enganado, mas porque o magnata Tata, indiano orgulhoso, quis virar as costas do seu brinquedo aos britânicos que chegavam de barco.
Bombaim é também a cidade de Salman Rushdie, que lá nasceu em 1947, nesse mesmo ano em que a Índia se tornou independente. Nas suas contradições, o país foi pioneiro a proibir Os Versículos Satânicos, ainda antes de Khomeini lançar uma fatwa contra o escritor. Mas Rushdie, que até viveu no Paquistão e é hoje cidadão britânico, continua apaixonado pela sua terra. Que revisita muitas vezes em livro. Há exactamente dois anos, em Santa Maria da Feira, o escritor recordou a infância no bairro onde vivia a sua família, muçulmanos, mas também hindus e cristãos. Num clima de tolerância. Foi esse ideal de sociedade que Gandhi e Nehru quiseram para a nova Índia. E é esse ideal que os terroristas abominam. Bombaim foi atingida, mas o alvo era a Índia.
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