
A cachaça feita em Goa, na Índia, é a base de caju. Chama-se "feni". Muitos indianos desfrutam da bebida, mas poucos sabem que a matéria-prima é brasileira. A manga, no Brasil, raramente é associada à Índia, de onde ela veio, assim como a jaca. O brasileiro abacaxi transita pelas bocas do lado de lá do Índico como se fosse endêmico.
Na Índia, tem lugares onde o brasileiro se sente como se estivesse no país natal, numa cidade antiga do Brasil, diz o arquiteto Luiz Antonio Fernandes Cardoso. "Existe um desconhecimento (sobre essa semelhança). No caso indiano é uma decorrência da inabilidade dos portugueses em receber a independência indiana", afimra.
Cardoso é curador de uma exposição organizada pelo Itamaraty, pela Embaixada Brasileira na Índia, comandada por Marco Antonio Diniz Brandão, e pelo Ministério da Cultura em cartaz no país asiático. "Brazil, Cultural Heritage: a journey through the Brazilian soul" ("Brasil, Patrimônio Cultural: uma viagem pela alma brasileira"), depois de Goa, irá a Deli e Mumbai mostrar o patrimônio cultural brasileiro construído ao longo dos cinco últimos séculos.
Quinze painéis ilustrados com textos e imagens carregam (parte da) multiplicidade cultural brasileira. A mistura de tradições africanas, sul-americanas/nativas e européias que forma o Brasil reporta à Índia. E por mais de uma razão, diz Cardoso.
"Até 1961, os portugueses ficaram em Goa. Por isso há traços culturais bastantes fortes da herança portuguesa" na Índia, diz o curador, que leciona arquitetura na Universidade Federal da Bahia. "Toda a costa ocidental indiana foi dominada por portugueses. Eles têm lá uma série de exemplares análogos aos nossos, imagens da arquitetura colonial brasileira, da arquitetura barroca brasileira", relata. Cardoso acrescenta:
- Além disso, a própria natureza destas regiões da Índia parece muito a natureza tropical brasileira. A Bahia. Viajando pelo interior de Goa, pelos arredores da capital, me senti viajando pelo recôncavo baiano.
A culinária goesa, segundo Cardoso, mescla tradições indianas e portuguesas e dá uma mistura que lembra a culinária baiana. "É muito condimentada, usa muito leite de côco, ensopados", conta.
A insistência na Bahia, no Nordeste, é embasada no fato de que nesta região "o período de colonização coincide com o indiano", explica o curador. Além disso, Bahia e Goa são ambas terras tropicais.
O intuito da exposição não é comprovar semelhanças entre Índia e Brasil. O objetivo é apresentar os cinco séculos pós-cabralinos do Brasil aos indianos. A ponte, se construída, o será pelo visitante.
Lá como cá, o povo gosta de rua. "Em Goa a população tem uma alegria, um gosto pela festa", diz Cardoso. "Acaba de ocorrer na Índia uma festa muito popular, da chegada do ano novo. É festa na rua, com carros alegóricos, dança, música. São pontos muito próximos à nossa realidade: tocar na rua, dançar na rua", analisa o curador.
A exposição faz parte do I Festival de Cultura Brasileira na Índia, organizado pela Embaixada do Brasil no mesmo país, oficialmente aberto com a presença do Presidente Lula em outubro.