"Embora Agosto seja já um mês mais seco, se o compararmos com os meses de Junho e Julho, normalmente mais chuvosos (este ano a regra parece ser outra), não podemos pensar que a monção já lá vai e que o quase insuportável quente e húmido Outubro está à porta." A monção vista pelos olhos da "paclina" Mafalda Mascarenhas.
Embora Agosto seja já um mês mais seco, se o compararmos com os meses de Junho e Julho, normalmente mais chuvosos (este ano a regra parece ser outra), não podemos pensar que a monção já lá vai e que o quase insuportável quente e húmido Outubro está à porta. A monção é ainda nossa íntima companheira e é dessa intimidade que lhes venho falar.
A monção é, para um ocidental, algo atemorizador.
As notícias que chegam ao Ocidente neste momento são sempre de inundações, desalojados e mortes. Lá, não se sabe bem onde é Bihar ou Assam ou Goa. É Índia e pronto. Está tudo submergido, ou quase. Por isso, raros são os turistas que se aventuram a visitar Goa nesta altura e suspeito que os que o fazem são movidos por restrições financeiras.
A primeira vez que tive a oportunidade de passar a monção em Goa fugi! Baseada na opinião de terceiros, cujos fundamentos não indaguei suficientemente na altura, fui de armas e bagagens para a Terra. Junho e Julho em Portugal revelaram-se por isso ainda mais apetecíveis. A Terra estava óptima e eu toda contente por não estar em Goa “sitiada”.
Felicidade efémera que se ensombrou no regresso a casa. De imediato aprendi que nunca se deve deixar uma casa fechada durante a monção, sem a vigilância apertada dos seus ocupantes. As roupas, os sapatos, os brinquedos das crianças tinham enverdecido. As páginas dos livros estavam amolecidas e húmidas. A casa mofava.
Seguramente que as instruções de arejamento não tinham sido cumpridas, pensei. Logo percebi que a minha noção de casa arejada e seca não coincidia com a da minha instruenda. Para ela, julgo, a casa estava muito bem cuidada. Suponho que noutros lares a situação seja bastante pior. Recordo agora um importante acontecimento socio-político celebrado durante a monção em que um eminente goês levava vestido um fato escuro cravado de esverdeadas condecorações.
Ele vive na aldeia onde a exuberante vegetação circundante eleva a humidade do ar a níveis próximos dos 100% e os longos cortes de energia destroem tudo o que um frigorífico pode conter, inviabilizando também a acção de qualquer desumidificador. Comparada com isto a minha casa citadina estava seca! (Para não falar nas casas pobres e insalubres, onde, confesso, não consigo imaginar como será a vida durante a monção, ou mesmo fora dela).
Goa é ainda mais bonita durante a monção. A vegetação ganha exuberância e a paleta de verdes torna-se infinita. A água transborda das fundas valetas e corre rápida e impetuosa pelas encostas. O barulho ensurdecedor das fortes chuvadas grava-se para sempre na nossa memória. A temperatura torna-se amena e uma vida mais caseira preenche-nos os dias. Para muitos esta descrição romântica não corresponde aos trabalhos que sofrem durante a monção. E têm razão.
Gostam mais da monção os que se deslocam de automóvel e não de mota ou a pé e que não ficam completamente molhados quando um carro ou um autocarro atravessa a toda a velocidade as inúmeras e enormes poças que assolam as ruas de Goa. Gostam mais da monção os que tanto em casa como no trabalho conseguem manter os seus haveres a salvo, sem que nada fique verde ou bafiento.
Mas há coisas a que ninguém pode escapar. Uma ida ao mercado durante um forte aguaceiro de monção é uma experiência inesquecível. Em especial para mim que ainda não consegui livrar-me da impaciência e da tensão das grandes cidades. Toda a gente sabe que quando chove muito o melhor é esperar que a força da chuva amaine já que os aguaceiros são torrenciais mas curtos.
Mas esperar é, para mim, um verbo difícil de conjugar. Se já acabei as compras tenho é de voltar imediatamente para o carro, faça chuva ou faça sol! Resta-me então sofrer as consequências da minha inquietação: a roupa fica ensopada, torço um pé, enfio outro dentro de um buraco e acabo a tentar tirar, numa poça de água da chuva, algo de viscoso que esse buraco deixou nos meus pés e sapatos.
Por tudo isto, decidi que nunca mais deixaria Goa durante a estação das chuvas. Decisão da qual ainda não me arrependi.
Pangim, 31 de Julho de 2004