Vaman Raghunath Varde Valaulikar, mais conhecido como Shenoi Goembab, foi uma personalidade ímpar no panorama cultural na historia de Goa. Grande escritor e estudioso da língua Concani, nasceu em 1877 em Bicholim e o seu percurso biográfico leva-nos a Carachi e Bombaim e pelas suas dezenas de obras literárias que o levam a ser considerado por muitos como "Pai da literatura moderna Concani". A personagem escolhida por Francisco Monteiro para este mês de Outubro.
Vaman Raghunath Varde Valaulikar mais conhecido como Shenoi Goembab, filho de Raghunathbab e Sitabai Varde Valaulikar nasceu a 23 de Junho de 1877 na vila de Bicholim, distrito de Goa, antigo Estado da Índia.
Começou a ler aos quatro anos de idade; iniciou os estudos em marata completando a respectiva 6ª classe; transferiu-se posteriormente para o ensino primário português sendo matriculado na Escola Primária Oficial de Bicholim onde num ano lectivo fez os exames correspondentes as primeiras três classes do ensino primário português isto é o antigo 1º grau e no ano seguinte fez os exames da 4ª classe antigo 2º grau na Escola Primária Oficial de Bastorá, no concelho de Bardez.
Era seu desejo prosseguir o ensino liceal em Pangim, mas como os seus pais não tinham possibilidades financeiras de pagar os seus estudos na capital, teve que permanecer em casa; no entanto como era um jovem com grande ânsia de aprender, dedicou-se a aprendizagem de sânscrito, marata, hindi, inglês e português.
Em 1893 o seu tio paterno Chitamanrau que se encontrava de férias em Goa reparou que o seu sobrinho era um jovem cheio de qualidades e com grande vontade de aprender, por isso levou consigo para Bombaim aquando do seu regresso tendo-o matriculado na Maratha High School de Girgarum, onde em 1898 completou o ensino secundário.
Regressado a Goa, começou a leccionar numa escola, mas como não se sentia satisfeito com a actividade profissional que exercia seguiu para Karachi, onde trabalhou durante alguns anos. Regressa a Bombaim e começa trabalhar no consulado italiano, mas passado pouco tempo consegue colocação como chefe de contabilidade numa empresa alemã.
Com início da I Grande Guerra (1914-1918) os cidadãos alemães regressaram a sua pátria deixando a administração da companhia entregue aos cuidados de Shenoi Goembab, que dirige a empresa com grande zelo e dedicação; terminada a guerra quando os proprietários alemães voltam a Bombaim manifestam o seu grande apreço pelo trabalho desenvolvido pelo seu funcionário elogiando o seu empenhamento, dinamismo e honestidade postos na administração da empresa e passado pouco tempo em reconhecimento das suas capacidades e da sua dedicação promovem para o cargo de Secretário da Empresa.
Apesar dos seus elevados méritos na administração da empresa o que o distinguiu e projectou foi a defesa e divulgação da língua concani; convém salientar que o seu apego a língua materna está em grande parte relacionado com uma chamada de atenção feita pelo então Inspector de Instrução em Goa, Tomás Mourão Garcez Palha, “Barão de Combarjua”, em relação a um livro escolar da sua autoria escrito em 1899 com o título “O Mestre Portuguez”, que se destinava a ser utilizado nas escolas de marata-português onde mencionava a língua marata como sendo a língua vernácula de Goa; o “Barão de Combarjua” que era uma personalidade muito versada e entendida nos assuntos relacionados com as línguas locais, chamou-lhe a atenção dizendo que a língua vernácula de Goa era o concani e não o marata como ele escrevera.
A chamada de atenção ficou profundamente gravada na sua memória e depois de ter feito uma profundada reflexão chegou à conclusão de que a afirmação do Barão estava correcta. Reconhecendo então o seu erro iniciou uma verdadeira cruzada na defesa e divulgação da sua língua materna; fez aturadas pesquisas para descobrir as suas origens e depois de ter reunido os elementos necessários provou que o aparecimento da nossa língua materna é anterior ao da língua marata e que ela tem muito mais de dois mil anos de existência independente. Ele foi o primeiro a dizer-nos quanto é bela e doce a nossa língua mãe e quão rico e diversificado é o seu vocabulário.
Por tudo o que fez em prol da nossa língua mãe ele é justamente conhecido como o “Pai da moderna literatura concani"; deu o seu valioso contributo para as mais diversas formas de literatura – novelas, poesias, dramas, ensaios e história. Os seus trabalhos relacionados com história, linguística e filosofia são clássicos e foram reconhecidos por escolásticos de renome.
É autor de vinte e dois (22) livros em escrita Devanagri e sete (7) em escrita Romana. Dos primeiro merecem destaque: “Gomantopanishad” (Os “Upanishads) 2 volumes em forma de histórias; “Konkanichi Vyakronni Bandovoll”; “Goenkaranchi Goeam-bhaili Vasnuk”, (Estabelecimento de Goeses fora de Goa), “Albuquerquan Goem Koshem Jiklem” (Como Albuquqerque Conquistou Goa) escrito em 1910, por ocasião das comemorações do IV Centenário da conquista de Goa, mas que só foi publicado em 1955; “Konkani Bhashecho Itihas”; “Konkani Bhashechem Zôit” (O Triunfo da Língua Concani); “Ballipattnacho Sod”; “Punneatmo Ram Kamati”; “Mogachem Logn”; “Zilba Ranno” e “Povnachem Toplem”
Em relação as obras escritas em concani romanizado, destacam-se “Mogachem Lôgn”, “Pounachem Toplem”, ambas adaptações à realidade goesa de Moliére e Shakespeare; e as traduções “Rajput Hamlet ani Bapaichem Bhut (Hamlet)”, “Gorê Bailecho Kallo Ghôv (Otelo), “Dhuvanchi Porikxa” (Rei Lear), “Junvllea Bhavancho Ghuspa-Godôll” (A Comédia de Erros), “Agul’leachem Nivllon” (A Fera Amansada), “Ranniechem Jivem Baulém” (Macbeth); “Ghatmaro Ixtt (Júlio César), Bhusmare Alebhav-Kolebhav (Timon de Atenas) e “Jaducho Zunvo” (A Tempestade). Também fez a adaptação de uma das histórias de “As 1001 Noites” de Abu Hassan, com o título “Jhilba Ranno” ao Reino dos Kadambas cuja capital foi Chandrapur, actual Chandor em Goa.
Shenoi Goembab distinguiu-se também como filósofo e filantropista; o seu contributo não se limitou a língua concani mas a Goa como um todo. Trabalhou arduamente pela Goa Dourada até ao último suspiro. Em 2000 uma comissão de linguistas de concani de Goa, Mangalore, Cochim e Bombaim elegeu-o como a “Personalidade Concani do Milénio”; as comunidades Goesas na diáspora celebram em sua honra o Dia de Goa.
A sua contribuição não se limitou ao movimento linguístico e literário; ele foi também um grande historiador que não só documentou a história de Goa, mas analisou-a objectivamente.
O apelo que ele fez para que os seus conterrâneos tivessem mais auto-estima e consciência da sua identidade tem toda a razão de ser e volta a ser de grande actualidade nos dias que correm, porque nunca esteve tão em causa a nossa identidade cultural! Shenoi Goembab foi uma personalidade ímpar no panorama cultural na historia da nossa Goa. Faleceu em Bombaim, a 9 de Abril de 1946.