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Categoria > Opinião

Leopold, o café de toda a gente, em todo o mundo

1/12/2008   |  Paulo Varela Gomes
in: O Publico

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Estiveram lá comigo, numa ou noutra altura, a beber Kingfisher, a cerveja da Índia, ou um simples chá, o Nuno, o Sidh, a Tânia, estudantes daí que escreviam teses sobre a história ou a forma de Bombaim. Um colega deles, que não conhecem, um estudante daqui, amigo de alguém que se interessa pelos estudos portugueses, morreu ontem à noite no Leopold.
 
O Leopold estava sempre cheio de estudantes e outros jovens. Tão jovens como aqueles que ontem atiraram granadas lá para dentro e dispararam sobre as pessoas, tão determinados, tão interessados em acreditar, tanto os que morreram como os que mataram.

O Nuno, o Sidh, a Tânia, lembrar-se-ão do Leopold, o Leopold Café & Bar que ontem desapareceu, fundado na rua de Colaba, a espinha dorsal do extremo sul de Bombaim, há mais de cem anos. Era um sítio bonito. Havia balcões de madeira de esquinas arredondadas, grandes espelhos, paredes de fumo e humidade tão entranhada como sépia numa fotografia. Ventoinhas descomunais lutavam em vão contra o calor e o fumo dos cigarros sobre mesas atulhadas de gente e filosofia, política, crítica de cinema, conversa sem interesse nenhum. Quando entrávamos no Leopold vínhamos sempre um bocado stressados da experiência da rua de Colaba: vem-se por um longo passeio coberto com lojas rascas dos dois lados, sem contacto com o trânsito oleoso que escorrega na rua. Vínhamos vidrados pela ânsia dos vendedores e o brilho dos plásticos, dos metais. Ao entrar no Leopold não havia alívio nenhum, era o contrário: vozearia, calor, pelotões de empregados de casaco branco a dançar entre mesas, anúncios de cigarros entrevistos no meio do nevoeiro de cigarros: Sin. Repent. Repeat.

Não gostávamos particularmente do Leopold, essa é que é a verdade. Era muito quente. Muito escuro. Gostávamos mais do Mondegar o outro café da Baixa de Bombaim, trezentos metros acima na rua, também muito frequentado por ocidentais. Porque é que não atacaram o Mondegar? Porque não tem um nome ocidental?

Nem o Mondegar nem o Leopold são (eram?) cafés à maneira da Europa. Para começar não há café, quer dizer, não há bica, nem capuccino ou meia de leite. Há baldes de café à inglesa e à indiana. Depois há as mesas encavalitadas umas em cima das outras e uma barulheira incrível com toda a gente cotovelo contra cotovelo e gritaria contra gritaria. E juke-boxes com hits dos anos de 1940 até hoje, quase todos típicos do gosto de boys and girls de educação em colégios ingleses.

Mas o Leopold e o Mondegar são (eram?) característicos de Bombaim: era muito fácil desatar a conversar com o vizinho da mesa ao lado, desatar a rir com o empregado, entrar só e sair acompanhado, entrar de mão dada e sair sozinho, passar horas numa mesa onde se falam três ou quatro línguas ao mesmo tempo.

O Leopold foi o primeiro café que frequentei em Bombaim, a minha porta da Índia, a minha porta da Ásia, e Bombaim foi provavelmente a cidade mais cosmopolita que alguma vez conheci, sem nenhuma das peneiras disso, dos sinais disso, as livrarias e salões disso (Bombaim nunca foi a boa e correcta consciência ocidental), cosmopolita apenas porque ninguém perguntava a ninguém de onde é, ninguém estranhava em ninguém o que vestia e o que pensava, e hindus, muçulmanos sunitas e xiitas, cristãos, parsis e jains, gujerates, biharis, alemães, ingleses e franceses, andavam por todas as ruas e ruelas, tanto na sujeira de Crawford Market como na limpeza imaculada do passeio coberto do Taj, agora cheio de cinzas, cartuxos vazios e poças de sangue seco, sem que a alguém ocorresse vir chatear a gente com perguntas.

Por exemplo: Bombaim era vossa, nossa, deles, dos portugueses. Um bocado acima do Leopold e do Taj era a casa de Garcia de Orta quando, no início do século XVI, o que é hoje a Baixa de Bombaim era propriedade dele. Um bocadinho ao lado, há uma igreja católica onde estão pedras com inscrições de um bispo nascido em Santarém no final do século XIX. Mais acima há uma "Portuguese Street", memória de uma igreja portuguesa feita quando, durante duzentos anos, entre 1500 e o final do século XVII, toda a área central de Bombaim foi da Coroa de Portugal.

Depois foi inglesa. Depois indiana. E do mundo inteiro.

Tudo isto acabou. Não foi ontem com os tiros e as granadas, vem acabando há anos, com ataques uns atrás dos outros, muitas centenas de mortos a que vocês aí, embalados pelo discurso da democracia e da paz não ligaram nada, com fascistas disfarçados de religiosos a atiçarem ódios uns contra os outros, com gente horrorosa a vir-nos dizer a nós, a vocês, Sidh, Tânia, Nuno, e a milhares de pessoas do Norte da Índia, do Sul da Índia, de toda a parte, que não têm direito a Bombaim, a Mumbai, à mãe Bombaim que há três séculos, por entre motins e complicações, nos aceitou a todos, que não, já não pertencemos aqui, ao Leopold, ao Mondegar, ao Taj, à Native Town, ao Chor Bazar, a Dharavi, o maior bairro de lata do mundo, à feira de arte do Khala Goda, à praia de Chowpatty, que tudo isto pertence exclusivamente aos maratas, ou a estes, ou àqueles, em vez de ser de nós todos, da humanidade inteira, como todas as grandes cidades do mundo.

O Leopold, entendem? Era um café de toda a gente, em todo o mundo. E agora acabaram com ele e não foram os "terroristas", esses só lançaram as granadas.
Foram vocês aí na vossa distracção.
E nós aqui na nossa estupidez.
Mas Bombaim há-de sair-se desta, hão-de ver. Mesmo sem vocês. Bombay meri jaan, Bombaim minha vida.

27 de Novembro de 2008, em Goa
Historiador de Arte e delegado da Fundação Oriente na Índia
 

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