2 de Janeiro de 2001 (Diário de Notícias):
"Só
soldados vitoriosos ou mortos"
Na véspera da queda da Índia, Salazar pediu o
sacrifício da vida aos três mil militares portugueses.
Não os queria prisioneiros
José Manuel Barroso
Arquivo DN
A 3 de Janeiro de 1962, António de Oliveira Salazar, o
líder e fundador do regime do Estado Novo, não leu o
mais doloroso discurso da sua vida política. Perante uma
Assembleia Nacional aturdida pela queda da Índia
Portuguesa, um Salazar afónico "com as emoções
das últimas semanas" teve de recorrer ao presidente
do parlamento, Mário de Figueiredo, para a leitura de um
texto de reconhecimento e de justificação de uma
derrota, que iniciava o fim do Império Colonial
Português, sem sequer poder invocar a gesta patriótica
dos milhares de soldados mortos.
A 14 de Dezembro de 1961, três dias antes da invasão e
ocupação do Estado Português da Índia (Goa, Damão e
Diu) pelas forças da União Indiana, Salazar pedira aos
soldados e marinheiros portugueses nos territórios um
último sacrifício, o da vida.
Mal armados e em número reduzido (cerca de 4 mil
efectivos), perante as forças indianas invasoras (cerca
de 50 mil militares do Exército, Marinha e Força
Aérea), resistir significava uma cruel e inútil
auto-imolação para os efectivos portugueses. Nos dois
dias da invasão, resistiram o que puderam, morrendo 26
militares. Mas o contingente português acabou por se
render, a 19 de Dezembro, tendo o governador, general
Vassalo e Silva, ordenado a "suspensão do
fogo" às suas tropas.
Mais de 3 mil militares portugueses foram feitos
prisioneiros pelo Exército indiano (entre os quais se
encontrava o general Vassalo e Silva), os prisioneiros
que Salazar não queria. Por isso puniu e perseguiu
alguns dos oficiais em serviço na Índia - o que abriu
dolorosa ferida nas Forças Armadas portuguesas e foi uma
das raízes do derrube do regime de Salazar, doze anos
depois da queda de Goa, Damão e Diu.
Na mensagem que enviou, a 14 de Dezembro de 1961, ao
governador e comandante-chefe português do Estado da
Índia, Vassalo e Silva, o chefe do governo de Lisboa
reconhecia a "impossibilidade de assegurar a defesa
plenamente eficaz" dos territórios, mas pedia ao
general que organizasse essa defesa "pela forma que
melhor possa fazer realçar o valor dos portugueses,
segundo velha tradição na Índia". E ainda:
"É horrível pensar que possa significar o
sacrifício total, mas recomendo e espero esse
sacrifício como única forma de nos mantermos à altura
das nossas tradições e prestarmos o maior serviço ao
futuro da Nação".
Sendo "impossível" a defesa "eficaz"
dos territórios, dado a Índia poder multiplicar
"por factor arbitrário" as suas forças de
ataque - conforme Salazar reconhecia na sua mensagem - a
ordem dada ao general Vassalo e Silva revelava-se
inequívoca. "Não prevejo possibilidade de tréguas
nem prisioneiros portugueses, como não haverá navios
rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e
marinheiros vitoriosos ou mortos". O telegrama de
Salazar a Vassalo e Silva, ao reconhecer a
"impossibilidade de assegurar a defesa", exigia
mártires, que pudessem ser exibidos interna e
externamente, em nome de uma política de intransigência
que tinha como horizonte o futuro dos territórios
ultramarinos de África - onde a guerra começara já (em
Angola) nesse ano de 1961.
Por isso, na sua mensagem à Assembleia Nacional, a 3 de
Janeiro de 1962, Salazar invoca o princípio da soberania
nacional, tal como o definia o ordenamento jurídico da
Constituição do Estado Novo. "Nós não podemos
negociar, sem nos negarmos e sem trairmos os nossos, a
cedência de territórios nacionais, nem a transferência
das populações que os habitam para soberanias
estranhas", disse Salazar. Era o fundamento de uma
política de resistência.
A "questão da Índia" começara uma dezena de
anos antes, com a independência da União Indiana. Desde
1948 que, directa ou indirectamente, as autoridades do
novo país - a "jóia da Corôa" do império
britânico - reclamavam a integração na grande Índia
dos territórios que Portugal detinha sob sua
administração, desde há quase cinco séculos (ler
cronologia). Em 1950, o governo indiano solicita,
formalmente, a Lisboa, a abertura de negociações,
quanto ao futuro dos territórios portugueses. Portugal
recusou sempre qualquer diálogo com a União Indiana.
Em 1953, o primeiro-ministro indiano, Nehru, afirma que,
face à recusa portuguesa, o seu país não vê outra
solução que não seja "a tranferência directa que
assegure a fusão daqueles territórios com a União
Indiana".
No seio do regime português discute-se a possibilidade
de outras soluções, para preservar a autonomia dos
territórios. Mas Salazar, reconhecendo embora que Goa (o
maior dos três territórios) é, ele próprio,
militarmente indefensável, entende que um plebiscito ou
mesmo a independência não constituem soluções, uma
vez que Nehru declara já as não aceitar.
A ideia do plebiscito atraía, então, um sector
importante do regime, como forma de demonstração, por
parte de Portugal, do respeito pela vontade das
populações da Índia Portuguesa e como argumento
perante a comunidade internacional. Mas o precedente que
abria, para o Ultramar, solidificou a intransigência de
Oliveira Salazar - e levou à humilhação na Índia.
Cronologia
SÉC. XV. O objectivo estratégico de
Portugal, neste período, era a descoberta do caminho
marítimo para a Índia (1498, por Vasco da Gama). O
historiador britânico Arnold Toynbee divide a história
do mundo em duas fases, a do homem pré-gâmico e a do
homem pós-gâmico. "A forma como as religiões
cristã, indostânica e muçulmana se desenvolveram, lado
a lado, em Goa, durante séculos e em mútuo respeito,
constitui uma das características da presença
portuguesa no Oriente". O controlo naval do Índico
é uma meta.
SÉC. XVI. D.João III define o seu conceito estratégico
de "abandonar o norte de África, manter o possível
na Índia e fazer o esforço no Brasil".
SÉC. XIX. Depois da independência do
Brasil (1822), o esforço estratégico de Portugal no
Ultramar dirige-se para África.
1947. A Grã-Bretanha concede a
independência à Índia. Nesse ano, o primeiro-ministro
indiano, Nehru, afirma que o seu país dará todo o apoio
ao povo de Goa para conseguir a libertação.
1948. O goês António Bruto da Costa escreve a salazar
condenando o Acto Colonial e defendendo uma verdadeira
autonomia administrativa do Estado Português da Índia.
1949. O governo indiano exige à Santa
Sé a extinção do Padroado do Oriente, cessando o
privilégio concedido a Portugal de designação de
bispos para dioceses indianas _ reduzindo a Goa a
arquidiocese de Goa.
1950. O governo indiano propõe ao
governo português negociações para definição do
futuro dos territórios portugueses na Índia. Lisboa
rejeita a proposta. Negoceia com a Santa Sé a
redelimitação da arquidiocese de Goa.
1954. A 30 de Novembro, em discurso na
Assembleia Nacional, Salazar reconhece que Goa é
indefensável militarmente.
1961. Redução dos efectivos militares
portugueses na Índia (1960). A União Indiana ocupa
militarmente o Estado Português da Índia e anexa Goa,
Damão e Diu ao seu território.
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